WOM Report – Moonspell, Murais @ Lisboa Ao Palco, Quinta da Alfarrobeira, São Domingos de Benfica – 21.09.2020

Após seis meses, a World Of Metal volta às reportagens apesar de ser quase uma situação de excepção e de ainda nos encontrarmos todos numa longa travesia do deserto que não sabemos bem onde termina. São Pedro foi amigo e permitiu-nos que houvesse uma pausa na chuva que caiu em força durante o fim de semana. A ocasião era o Lisboa Ao Palco, uma série de concertos na Quinta da Alfarrobeira em São Domingos de Benfica onde o destaque para os amantes de música pesada seria obviamente a oportunidade de ver os Moonspell ao vivo. Arriscaria que seria a oportunidade de ver qualquer coisa ao vivo, mesmo que sob um contexto e condições bem distintas e específicas.

Com uma organização bem cuidadosa em relação às regras da DGS, o público foi se instalando nas muitas cadeiras que estavam em frente ao palco, indicando quais eram condições – permanecer sentado durante o concerto e após o mesmo até que fosse dada indicação em contrário e manter sempre as máscaras colocadas. Ainda havia a particularidade para quem quisesse comprar merchandising dos Moonspell, apenas teria de usar o QR Code que estava colado na cadeira de forma a fazer a encomenda que lhe seria entregue ao lugar. Também havia a possibilidade de beber cerveja mas apenas sem álcool – algo que terá desagradado provavelmente mas sendo estes períodos excepcionais, não faria sentido ser de outra forma.

Ainda o público estava a entrar no recinto e já era hora dos Murais subirem ao palco. Trata-se de um projecto de Hélder Morais que conta com  a ajuda de mais três músicos, Miguel Ferrador nos teclados e guitarra, João Vairinhos na bateria e ainda João Cabrita no saxofone que não participou em todas as canções mas deu o seu toque mágico quando assim o fez. A sonoridade era desfasada daquilo que todos aguardavam para ver, mas ainda assim o seu pop indie com alguns momentos de trip hop conseguiu arrancar aplausos do público e manter uma atmosfera descontraída ao longo da actuação que durou cerca de quarenta minutos. Hélio não se cansou de agradecer ao público por ter vindo mais cedo e à organização pelo convite e pela oportunidade de mostrarem o disco ainda por lançar.

Até à hora certa para que os Moonspell pudessem subir ao palco, surgiu Carolina Torres que estava encarregue de animar o público enquanto se dava a mudança de palco. O público ainda estava algo frio – ou então as suas vozes não se conseguiam ouvir por trás das máscaras – mas foi uma boa oportunidade também para relembrar a luta da União Audiovisual quando Carolina chamou ao palco Claúdio Silva, técnico de som que partilhou com o público algumas histórias engraçadas de músicos, não identificados. Apesar da boa disposição, o público já estava ansioso pela início do concerto.

O mesmo iniciou-se de forma atípica, com a banda a entrar em palco e Fernando Ribeiro dirigir-se ao público antes da música fazer-se ouvir. Algo atípico mas compreensível dado que este era mesmo um regresso muito aguardado e ansiado pelos fãs. A primeira música escolhida para abrir também foi inesperada – “Domina” de “Extinct”, um tema melódico e melancólico mas que curiosamente ilustra perfeitamente, de forma metafórica, o momento actual. Som perfeito, evidenciava que a banda estava coesa, ainda para mais sendo este o segundo concerto com Hugo Ribeiro, novo baterista, que demonstrou estar ao seu melhor nível.

O catálogo é enorme e de muita qualidade mas obviamente que é sempre especial quando Rui Sidónio se junta a Moonspell para cantar “Em Nome Do Medo”, um dos temas mais emblemáticos dos últimos trabalhos da banda. Sidónio surgiu com o seu fato macaco habitual de protecção contra resíduos (que hoje em dia faz mais sentido do que o desejável) e não se furtou para ir para o largo espaço entre o público e o palco, espaço ocupado pelos fotógrafos. Sempre um dos momentos altos do alinhamento, não sendo aquele excepção. Seria expectável incursões ao mais recente trabalho, “1755” e a primeira surgiu com “In Tremor Dei”, recebido com muito headbanging sentado.

Os agradecimentos aos fãs não faltaram e haverá melhor forma de agradecer que não com a sequência “Opium” e “Awake”? Embora continue a achar que continue a faltar a “For A Taste For Eternity”. Detalhes. Depois de uma também muito bem recebida “Breathe (Until We Are No More”), seria previsível o regresso a “The Butterfly Effect” visto a reedição em vinil ter recentemente esgotado, embora não fosse tão previsível a trilogia composta por “Soulsick”, “Butterfly Fx” e “Can’t Bee”, precisamente os três primeiros temas do álbum. O vocalista aproveitou para partilhar que apesar deste concerto (e outros como estes) sejam apenas pequenos passos em direcção à normalidade, a banda não se importava nada de os dar. Revelou ainda que parte dos Moonspell (Ricardo Amorim, Pedro Paixão e Hugo Ribeiro) iria viajar para gravar o próximo álbum de originais que teria data prevista de lançamento para Fevereiro de 2021.

Com sempre imensos estados de espírito diferentes de música para música, mas sempre a encaixar bem, foi possível ouvir “Everything Invaded” antes de “Mephisto” e “Scorpion Flower” – que Fernando Ribeiro confessou ter anunciado a ordem trocada de forma inadvertidamente já que esta última deveria ter sido tocada antes da “Mephisto” que continua a ser sempre um dos momentos altos de qualquer actuação. “Todos Os Santos” foi o último tema antes do encore, que se previa ser mais longo do que realmente foi. Não sabendo exactamente o que se passou, aquilo que pudemos apurar foi que houve queixas da vizinhança e a banda teve então que encurtar o concerto.

Apesar da vontade de quererem tocara mais, restariam apenas mais dois temas, os incontornáveis “Alma Mater” e “Full Moon Madness” sendo que este último Fernando pediu para que o público uivassse para ver se os vizinhos vinham à janela. Sempre aquele momento especial de comunhão com os fãs, é um tema que continua a resumir o carinho e amor que a banda tem pelos seus fãs e vice-versa. Na despedida ainda ficou no ar a hipótese da banda tocar mais uma vez ao vivo este ano, algo que será aguardado com ansiedade. Público despediu-se dos Moonspell de pé e aplaudir.

Faltou muita coisa, é certo, mas  seria ingénuo pensar que na altura em que vivemos podemos assistir a concertos como se não se tivesse passado nada, como se não se estivesse a passar nada. Numa altura em que não há quase nada, eventos como este não deixam de ser preciosidades. Eventos destes onde o metal possa ser celebrado, ainda que com fortes medidas restritivas, deveriam ser sempre valorizados. Servem para que possamos apreciar e dar valor à normalidade que meses atrás era banal e corriqueira. E, na maior parte das vezes, até desvalorizada e desperdiçada. Será sempre uma questão de perspectiva.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Sons Em Trânsito / Livecom


 

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