WOM Report – Septicflesh, Krisiun, Diabolical, Xaon @ Lisboa Ao Vivo, Lisboa – 16.03.19

A Codex Omega European Tour contava com 45 datas, tendo Portugal a honra de receber 2 delas, ainda numa fase inicial da mesma. Depois do Porto no dia 15, a segunda data teve lugar no passado dia 16 de março e contou com um Lisboa ao Vivo bem preenchido de fãs nacionais.

Apesar da hora “madrugadora”, algumas dezenas de fãs faziam fila à porta do Lisboa ao Vivo e não tiveram de esperar muito para ver os helvéticos Xaon surgir em palco, tendo os primeiros acordes sido ouvidos dez minutos após a abertura de portas. Trazendo na bagagem uma sonoridade que mistura o death metal melódico com o sinfónico, concentraram a actuação no seu segundo trabalho de longa duração “Solipsis” que virá a luz do dia no próximo dia 12 de Abril. Ainda com a casa muito despida, esforçaram-se por tornar toda aquela pequena multidão seus fãs, o que terão alcançado, ao terceiro tema, ‘Solipsis’, já o headbanging e os metal horns eram generalizados, à medida que a sala se ia compondo.

O tema ‘Eros’ foi lançado à plateia sobre aplausos, numa altura em que o vocalista Rob Carson era já o foco da actuação. À versatilidade emotiva e expressiva da sua voz, juntava-se uma enorme interactividade e capacidade de galvanizar a plateia à medida que iam nota a nota deixando fluir o seu inteligente jogo de peso e melodia que as orquestrações sabiam elevar. No final o único tema já editado, ‘Zarathustra’ do álbum “The Drif”, Rob Carson com uma certa teatralidade veste a música dando-lhe forma física que adensa a melodia, convidando também as guitarras a brilharem no seu devido lugar. Uma curta actuação, vivida com máxima entrega em palco, que terá cravado as suas garras na memória dos que a presenciaram.

Com a sala já bem composta foi a vez dos suecos Diabolical trazerem o seu blackened death metal com foco num ambiente obscuro, um culto negro que deixou um ambiente mais introspectivo nos presentes enquanto a música penetrava e guiava aquelas almas por paisagens soturnas e de obscura desolação. Rapidamente conquistaram aplausos e concentraram atenções assim, quando ‘Failure’ surge para adensar os headbangings, encontra um público sempre reactivo, como se verificará toda a noite.

Outro ponto alto da actuação, que destacou o último trabalho recém lançado “Eclipse”, foi ‘The Fire Within’, fazendo descer novo manto de densas trevas que se abateram sobre a plateia com peso, oferecendo vozes limpas e melódicas por entre a força do gutural, projectando-nos contra a muralha sonora dos riffs que se alicerçam no ritmo intenso da bateria. “Eclipse” foi a estrela da setlist e com ele haveriam de fechar com chave de ouro com ‘We Are Diabolical’, a voz de Sverker “Widda” Widgren ergue-se mais alto para assombrar a sala, quando se silencia ecoam aplausos e alguns gritos por Diabolical.

Casa recheada quando em palco surge um trio de veteranos, ao “boa noite Lisboa”, com sotaque do outro lado do atlântico, o público responde em uníssono de braços no ar, os riffs soltam-se e arrastam um turbilhão de headbangings, uma descarga de brutalidade e velocidade destinada a não fazer prisioneiros. Os Krisiun são possuidores de uma das mais sólidas discografias da cena brasileira. Percorrendo-a foram soltando sucessivos furações de categoria 5, varrendo a sala e ouvindo ovações após cada passagem. O trio é uma máquina bem oleada e ninguém na posse de todas as suas faculdades mentais o pode negar.

Sempre um dos momentos altos das suas actuações, ‘Blood of The Lions’, encontra um público bem quente, que ergue os braços juntamente com as vozes bem audíveis e empurra o conjunto para mais uma surreal descarga de brutalidade. Em ‘Slaying Steel’ eclode um mosh pit que não cessou até final e que foi o rosto de todo o concerto. Até ao final houve tempo para dedicatória a Moonspell, para se fazer um cover de Mötorhead com ‘Ace of Spades’ e muita celebração, testemunhada por litros de suor que se soltavam dos rostos. A banda curvou-se ao público e este a ela, saindo de palco com o pit bem intenso e um coro de gritos que tardaram a findar-se.

Desde a reunião solidificando-se como um dos mais originais e populares conjuntos do metal extremo, os helénicos Septicflesh têm somado sucessivas passagens de sucesso por terras lusas, por isso não foi com surpresa que, menos de um ano após a ultima passagem por terras lusas, tenham esgotado o Hard Club na cidade do Porto e preenchido muito bem o Lisboa ao Vivo, com uma hoste de fãs que respondendo ao chamamento se reuniram em frente do altar para a celebração, recebendo cada elemento com uma forte ovação. Abrem pelo mais recente trabalho “Codex Omega”, ‘Portrait of a Headless Man’ paira sobre uma multidão de braços no ar, incapaz de ficar indiferente a cada momento que se projecta do palco, com Seth Siro Anton a conseguir desde logo encurtar a distância do palco à plateia.

‘Pyramid God’ arranca com o embalo dos aplausos, numa comunhão total entre a banda e os fãs, nada fica sem resposta, da qual Seth Siro Anton reclama uma grande parte de responsabilidade, um verdadeiro encantador de multidões, facilmente conquistando a sala repleta. ‘Martyr’ e ‘Prototype’ seguem os passos das anteriores e iniciam com o impulso dos aplausos ao mesmo tempo que provocam explosões de energia. Não existe nada de vulgar no som que produzem. A sua música é a evolução ao longo de eras, o trajecto da música até à clássica, até à electricidade, da mentalidade para permitir que a negritude dos salmos que compõem, ainda que a esforço, passe no filtro da sociedade, trajectos que se reúnem na sua arte, ali naquela sala onde o seu nome se grita, enquanto as orquestrações de ‘Enemy of Truth’ vibram nas paredes do edifício.

‘Communion’ dá a oportunidade a Kerim “Krimh” Lechner de ser ele o encantador em destaque intensificando o headbanging ao mesmo tempo que o crowd surfing se vai tornando mais frequente, sendo já uma constante em ‘The Vampire from Nazareth’. Com aplausos preparamos-nos para celebrar o mito de Prometeu, titã defensor da humanidade que roubou o fogo de Héstia e o deu aos mortais, ‘Prometheus’ foi retribuído com metal horns e intensidade no pit. Numa voluntariosa descida ao inferno, eclodiu ‘Dante’s Inferno’ na casa quando a temperatura já se aproximava do sexto círculo. O que não demoveu que se cumprisse a tradição e um wall of death surgisse quando ‘Persepolis’ fez de Lisboa a capital pecaminosa do império Persa.

O público exigia e teve direito a mais, retornaram ao “Communion” para dedicar aos Moonspell o tema ‘Anubis’, acompanhado à capela pela generalidade dos fãs, finalizando logo de seguida com ‘Dark Art’, com todos juntos a sermos os arquitetos obscuros as memórias e emoções compostas ao longo daquela hora e meia de atuação. Organização irrepreensível da Notredame Productions, pontualidade e competência a que já nos habituaram, trazendo a terras nacionais esta enorme tour, correspondida com público e excelentes prestações em palco. Uma noite para recordar.

Texto por Henrique Duarte (parceria SFTD Radio)
Fotos por Hélio Cristovão
Agradecimentos SFTD Radio e Notredame Productions


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