WOM Report – Seventeen – R.A.I.V.A., Uivo Bastardo, Inner Blast, Hourswill @ RCA Club, Lisboa

É definitivamente um lugar comum, gasto pelo uso, de nos referirmos a certas noites no RCA Club como mágicas e como eventos que mereciam muitas mais pessoas. A efeméride foi o décimo sétimo aniversário da Ethereal Sound Works, editora exemplo da luta por ver a música nacional a ter o destaque que merece, luta nem sempre grata e quase sempre titânica. Para festejar, quatro propostas do catálogo da editora, todas bastantes diferentes em termos sonoros, mas todas evidenciadas pela aposta merecida depositada em cada uns. E cada um deles demonstraram no sítio onde importa, em cima do palco, o seu real valor.

Os primeiros foram os Hourswill, banda já incontornável do panorama progressivo nacional, sempre com a costela heavy metal bem saliente. O recém lançado “Dawn Of The Same Flesh” foi o ponto visitado, o que é compreensível, mas isso não tornou a sua actuação menor, muito pelo contrário já que temas como “Corrupted Soul” e “Enlightment” são repreentativos da qualidade do novo trabalho. Já se sabe que também metade da festa, logo à partida, é o bom humor de Leonel Silva, sempre com um à vontade que só é igualado pelo enorme poder vocal, algo que a emocional “Now That I Feel” transpareceu, tema cujo refrão foi cantado algumas vezes pela Liliana, dos Inner Blast, que estava na primeira fila. Mais um grande concerto, que algumas dificuldades técnicas não prejudicaram, por parte de um dos grandes nomes das sonoridades mais tradicionais.

Por falar em Inner Blast, foram eles os senhores que se seguiram. O ambiente era descontraído como se estivessem entre amigos, e efectivamente estavam. A exemplo dos Hourswill, a actuação da banda também se concentrou principalmente no mais recente álbum, “Figment Of The Imagination”, o primeiro que apresenta a banda sem teclas, com uma sonoridade mais crua mas sem por isso menos valorosa. Liliana está cada vez melhor no seu papel de frontwoman e teve imensos momentos em que brilhou “como na épica “There’s No Pride”. O processo de evolução é (ou deveria ser) contínuo e pareceu-nos que a banda está muito bem encaminhada. Ficou a ideia de que ainda estariam disponíveis para um último tema em regime de encore, mas o atraso já era considerável e ainda haviam mais duas bandas para subir ao palco.

Outra banda que lançou um álbum em 2019 foram os Uivo Bastardo, um álbum que causou um impacto extremamente positivo no nosso underground, no espectro do metal/rock industrial. Confesso que tínhamos grandes expectativas para os ver ao vivo e as mesmas foram atingidas, senão mesmo superadas. “Clepsydra” é uma pedrada no charco assim como foi a actuação da banda liderada por Hélder Raposo. Com um som mais forte e intenso do que aquele apresentado em estúdio, a banda apresentou a estreia na íntegra, fazendo apenas um pequeno interlúdio a agradecer ao público, editora e restantes bandas e salientou também a importância de agradecer João Tiago, guitarrista da banda que não pode estar presente e cujo lugar foi ocupadop por Paulo Basílio dos Deserto. Se em disco ficámos com a impressão de saber a pouco, ao vivo essa sensação é multiplicada por muito. No entanto, e já com uma sala bastante composta, a sensação geral era de satisfação genuína.

A noite já ia avançada mas ainda faltava mais uma banda. Talvez um dos grandes projectos surpresa de 2018, R.A.I.V.A., e que ao vivo é sempre bombástico. Fernando Girão é já um nome que dispensa apresentações na música portuguesa e até no panorama do rock nacional tendo passado por bandas como Pentágano e Heavy Band, mas foi com R.A.I.V.A. que entrou pela primeira vez pelos terrenos pesados do metal e com uma atitude punk de protesto que, sinceramente, faz muita falta à música de relevo hoje em dia, principalmente quando cantada em português – não é, felizmente, algo que escasseie nos meandros do punk/hardcore.

Se Girão inicialmente se encontrava um pouco preso à “cábula” das letras, depressa se soltou, mesmo sem haver quase comunicação com o público. Em termos sonoros a banda esteve fortíssima, com uma sonoridade bem definida – sobretudo a guitarra de Ricardo Mendonça – e com a voz de Girão a soar mais poderosa que nunca. “Filho da Maldade” foi um dos exemplos disto mesmo. O final seria memorável, com a banda a fazer uma pequena brincadeira com o público, onde o frontman improvisava com a voz (mesmo ao seu gosto) e fazia o público repetir, algo que resultou na perfeição. Para quem ainda não os tinha visto ao vivo, como foi o nosso caso, foi uma excelente surpresa.

No geral esta foi uma noite onde, mais uma vez refiro, tivemos quatro propostas diferentes onde todas brilharam e todas apresentaram as suas características únicas como mais valias. O público poderia ter sido em maior número mas no final a sala esteve bem composta e foi cheia com a música dos Hourwswill, Inner Blast, Uivo Bastardo e R.A.I.V.A.. Não sendo fácil hoje em dia sobreviver na música, seja em que campo for, é sempre de salutar vermos atingir dezassete anos por parte de um projecto que tanto tem trazido e ajudado à música pesada nos seus mais variados subgéneros. Esperemos que muitos mais se sigam, sabendo também que a luta continua. Pelo meio ficam noites assim, memoráveis.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Ethereal Sound Works


 

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