WOM Report – SonicBlast Fest 2026 – Dia 3 @ Praia da Duna dos Caldeirões, Vila Praia de Âncora – 08.08.26
Quem queria ficar a dormir até tarde foi certamente acordado com o soundcheck dos High On Fire, um excelente despertador para motivar um ida até à praia. Fui recrutado para fazer uma cianotipia a escala humana (um processo com origem no século XIX que cria impressões monocromáticas em tecido banhado num químico que reage à exposição solar). Estendeu um pano enorme e deitamo-nos em cima como mortos para o sol desenhar as nossas silhuetas. Foi das coisas mais bonitas que vi, adorava que fizessem um por ano e deixassem em exposição nas seguintes edições. Sigam o projeto em @ainvencaododiaazul.

Mais um cancelamento, os Levitation Room foram substituídos por Summer of Hate. Um começo leve para quem tivesse ressaca, shoegaze e psychrock, com bouquets de flores em palco e trajes bonitos, mereciam mais público, que estariam a fugir do calor.

As próximas bandas Primitive Ring e Margarita Witch Cult entraram em força e subiram o volume, mais próximos do ADN do SonicBlast, bolas de praia insufláveis inclusive. Fecharam com uma jam de diferentes músicas dos Black Sabbath.

Então entra a banda mais divisiva do festival, os Necrot. Deram um espectáculo excelente, tiveram boa plateia e puxaram por ela. Nada de mal a dizer, não está em causa a qualidade, sou fã. Mas, como muitos comentaram, o SonicBlast parece um pouco confuso, a fugir das origens de rock psicadélico com um charro à beira-mar, para trazer bandas que se encaixam muito melhor no Barroselas ou no Vagos, este último a a decorrer nos mesmos dias. E pessoalmente um SonicBlast mais pesado agrada-me bastante, mas o argumento serve para os dois lados e os 1000mods também estariam fora de cena num festival de black e death metal, que costumam andar de mão em mão. Talvez seja essa a função, introduzir uma variedade para desenjoar ou dar uma pausa de almoço, mas sinto que acabam por não ter a adesão merecida.

Voltando ao que interessa, se tivesse de escolher uma banda para definir o SonicBlast, 1000mods, ponto final. Disseram em palco que se sentiam em casa, tal como em 2024. A música deles é imersiva e relaxante, mesmo a mais mexida. Uma das minhas bandas favoritas para roadtrips. Fecharam com “Vidage2, que incorpora por completo o espírito deste festival e que seria a música que eu usaria para o aftermovie (ou Desert Cruiser dos Truckfighters, usada no aftermovie de 2016!).

Com mais um desviar de tema, Teen Mortgage trouxeram a dose punk e comédia do dia, com músicas inspiradas em coisas reais como “quando trabalhei na Apple Store e me quis matar” ou “quando tive de pagar a renda”, entre outras mensagens políticas mais sérias. Infelizmente, tiveram bastantes problemas de som e o set foi interrompido várias vezes.

Por mim, podíamos ter saltado para os lendários Elder, mais um grupo que define o género. Foi precisamente no SonicBlast de 2017, ainda em Moledo, que se estrearam em Portugal, voltando novamente em 2023. Trouxeram um teclista convidado para ajudar com o material novo, penso eu o Fabio Cuomo. Sempre o mesmo set impecável, por mais vezes que os veja, é impossível enjoar. Parece uma jam session entre amigos, que me faz lembrar outra banda que já estreou mas gostava muito de ver novamente por cá, os Earthless.

Só o lendário Matt Pike e High On Fire poderiam fazer frente aos Conan e Turbonegro. É uma das minhas bandas favoritas e tenho a certeza de que ficou registada atividade sísmica durante aquele concerto, uma confusão e emoção do princípio ao fim. Tocaram uma boa seleção de clássicos e material recente. Continuo a ficar desejoso por ouvir The Black Plot, que não faz parte da setlist há muito tempo, e que, já agora, desapareceu do Spotify juntamente com o resto do Luminiferous entre outros álbuns à uns anos. O video clip é fascinante, uma boa razão para abrir o YouTube.

Estava mais do que preparado para me retirar, mas a Melissa e o Tim convenceram-me a ficar. Os ADULT, à semelhança dos Snapped Ankles, são um duo de sintetizadores e voz, com mais de vinte e cinco anos de carreira, que se recusa a encaixar num género, não é de todo a minha praia habitual, mas mesmo assim punha qualquer pessoa a dançar. Recomendo.

Apenas teria trocado a ordem para banda de fecho, os Early Moods teriam sido o seguimento perfeito para os High On Fire, mantendo o volume e epicness, mas com tempo mais lento de doom. Tão pesados eram os riffs, que invocaram a chuva à quarta música, e não era pouca. Óptima desculpa para fugir para a tenda, que tinha deixado as mantas penduradas na corda. Ainda assim, o campismo continuou vivo até de madrugada, yay… não faltavam gazelos nem cerveja.
Ainda massacrado do Wacken e com o Milagre ao virar da esquina, comecei a empacotar às dez da manhã. Muitos ainda dormiam mas o calor já nos estava a expulsar das tendas. Tirando umas latas de cerveja e rolos de papel, fico feliz que o público estava a deixar o campismo relativamente limpo, nada comparado com o aterro que são os festivais no Reino Unido.
Apesar da divergência de algumas bandas que não parecem encaixar, foi um festival fantástico e maioritariamente livre de problemas. Seria queixar de barriga cheia. A unica coisa a melhor são as condições sanitárias, tanto pelas filas como pelo cheiro. Os chuveiros abertos deram aso a numa das manhãs, um indivíduo filmar indiscretamente quem tomava banho sem roupa. A organização reagiu depressa, realojou-o para o outro lado do campismo com um aviso, e ergueu uma tolda à frente dos chuveiros, mas acho que podia melhorar. Um pouco mais de cobertura no recinto seria beneficial, mesmo na restauração tem umas redes de camoflado mas não ajudam muito. Pequenos detalhes. A organização já anunciou as datas da próxima edição, 12 a 14 de Agosto de 2027, e lançou early birds a 80 euros durante até ao dia 9. Para mim, fica anotado, espero que não colida com mais nada.Um último café e sidónio com vista para a praia, um agradecimento a toda a organização, aos colegas fotógrafos, aos amigos que revi, e em especial à Melissa, que me emprestou umas mantinhas que me safaram duas noites a tremer de frio. Vindo que quem não gostava de praia, só digo, até pró ano.
Texto e fotos por Luís Balsa (Moshografia)
Agradecimentos Sonicblast & Garboyl Lives
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