WOM Report Xxxapada na Tromba – Dia 2 @ RCA Club, Lisboa – 19.01.19

O primeiro dia do Xxxapada na Tromba foi uma grande festa da música extrema e as expectativas estavam bem altas para o segundo, onde teríamos grandes destaques e alguns nomes que queríamos ver assim como outros queríamos rever. Principalmente as bandas nacionais que elevaram ainda mais a fasquia da qualidade num segundo dia que foi, acima de tudo, uma grande festa e celebração.

Não poderia ter começado melhor e logo com duas das bandas mais poderosas do nosso underground nacional, sendo que a primeira foram os Annihilation que se apresentaram com uma potência descomunal. Para quem toca death metal brutal, tal frase até é redundante, mas a capacidade técnica que a banda evidencia é assombrosa ainda que tenham tido um falso arranque no segundo tema tocado. Sofia e seus pares começaram a tocar para um público ainda despido em termos de números mas tal como o canto das sereias, esta música era boa demais para não ser apreciada por uma sala cheia. Cada vez melhores, é sempre um prazer enorme ver e ouvir os Annihilation a debitar malhas como a “Universal Dismal Collapse”.

Para continuar em grande, nada como termos uma outra grande banda de death metal lusitano para manter a boa tradição. Desta feita os Undersave. O death metal da banda de Loures não é imediato, mas aquilo que lhe falta nesse aspecto, sobeja em poderio metálico e técnico, e naquela noite estiveram ao seu melhor nível, despejando temas dos seus dois álbuns de originais. Cerebral, complexo mas sempre bruto, só faltou um pouco mais de movimento por parte do público que parecia ainda estar a ressacar do dia anterior. Foi pena porque a banda merecia, aliás, tal como os Annihilation anteriormente. Da nossa parte, não tinham nada a provar a sua superioridade ficou mais uma vez comprovada.

A primeira banda estrangeira da noite foram os Hymenotomy, vindos da Estónia e que trouxeram o prato do dia que era o bom e velho brutal death metal. O prato mais comum do cardápio foi o desbloqueador para que o público começasse as primeiras movimentações. Apesar da sua unidimensionalidade musical – e aqui estamos a falar da proposta em questão e não do género – o impacto no público foi considerável, proporcional ao tamanho dos títulos das suas músicas que, sem exagero deverão ser maiores que as suas letras. Dois pequenos exemplos, “Stealing A Young Sexy Goat From An Angry Farmer In Order To Have Sex With It While Unexpected Farmer Dismembers Your Hand With A Blunt Machete” e “Orgasm Achieved By Disemboweling Pregnant Women And Inserting Decapitated Fetuses Into Hairy Anus”. Dá ideia que é por esse motivo que a banda ainda só tem um álbum de originais editado… mais que difícil compor estas músicas, é complicado encontrar inspiração para estes títulos. Ainda assim, público feliz, missão cumprida na perfeição.

Ainda na Europa, da Estónia viajou-se para a Dinamarca, um destino onde iríamos encontrar UxDxS, que também não iria dar mais tréguas a um público que por esta altura já tinha esquecido o cansaço do dia anterior – ou já estava anestesiado – e estava ávido por movimento. Também com um álbum lançado apenas, grande parte do foco da banda de Copenhaga esteve nesse trabalho, “Too Fast For Love” e no EP “#Altingvildere”. Comparando com a banda anterior, trouxe um sentido de dinâmica superior onde o death metal bruto estava bem mais próximo do grindcore. Na actuação dos UxDxs, também tivemos novamente a presença das “Animadoras de Palco”, que aliás já tinham dado o ar de graça nos Hymenotomy, desta feita de forma mais discreta. Nota curiosa para esta actuação, que durou menos quinze minutos que o previsto, surpreendendo até os técnicos de som do Xxxapada na Tromba.

Os Tu Carne são um dos nomes veteranos do underground da nossa vizinha Espanha e aproveitaram o espaço temporal extra dado pelos UxDxS para fazer um soundcheck mais prolongado e minucioso. Com o vocalista a entrar em palco com máscara de porco, a banda estava pronta para debitar o seu goregrind que tem muitos pontos em comum com o punk em termos de sonoridade do que seria expectavel. As vocalizações distorcidas devido a um pedal de efeitos acabam por dar aquele toque mais familiar aos fãs do goregrind embora em termos de comunicação tornava tudo um pouco mais difícil de perceber. Isso não afectou minimamente a recepção do público à banda, com grandes bailaricos em frente ao palco que de certeza que abriu o apetite para a pausa do jantar que se seguia. Nota para as “Animadoras de Palco” que devem ter gasto uma nota neste fim de semana em roupa interior, ao ritmo que as rasgavam…

Um dos grandes nomes aguardados para ver era sem dúvida Gut, não só da nossa parte como também por parte do público. Depois de uma intro movida a Van Halen onde se ouviu a “Why Can’t Be This Love?” mas assim que a “Woyund Fuck” se começou a ouvir, não haviam dúvidas que estávamos ali mesmo para levar uma coça descomunal de goregrind mas foi na seguinte, na “Sperminator” que estala a batalha campal e que se marca o mote para o que seria esta actuação. Facto engraçado, foi o baterista a servir de frontman no intervalo das músicas, sempre pronto a dar uma perspectiva histórica do lançamento a que pertencia a música que iam tocar de seguida. Segundo facto engraçado, a banda teve um fã a cantar durante duas faixas que deixou a banda impressionada. E nós também. E no meio disto tudo, a moshada estava cada vez mais bruta tendo até havido alguns ânimos exaltados que obrigaram à intervenção pronta dos seguranças. Infelizmente também houve um stagediving que não correu bem e o fã teve que ser levado até ao exterior – esperemos que não tenha sido nada de grave. Uma actuação alucinante e cheia de energia onde ficámos na dúvida se esses níveis iriam ser superados. Ah espera, a seguir eram os Analepsy.

Se há uma banda de música extrema nacional que é um exemplo para tudo o resto, essa banda sem dúvida é Analepsy. Não é a questão de ter um som bruto, não é questão de serem exímios tecnicamente e absolutamente concentrados em darem o melhor concerto possível. Nem é sequer a questão de conseguirem tornar dinâmico um estilo de música que tem tendência a cair na unidimensionalidade. É tudo isso junto e muito mais. Se em disco a banda tem um poderio quase incomparável, ao vivo essa brutalidade torna-se ainda mais real e palpável. Malhões como “Colossal Human Consumption” e “Witness Of Extinction” são chamados o dois em um. Tanto dão para alimentar a vontade compreensível de partir coisas como ficar embasbacado com a proficiência técnica dos seus executantes. E o moshpit era prova viva de uma delas, que fervilhava de actividade. Uma actuação com tempo suficiente para sermos apresentados a um novo tema, ainda sem título mas com aquele poder todo que já lhe reconhecemos dos lançamentos apresentados até agora. A acabar, a participação de Sérgio Afonso dos Bleeding Display que ainda elevou mais a fasquia.

Depois de Analepsy, era complicado olharmos para uma proposta e encontrarmos pontos de superioridade. Inteligentemente, a banda que se seguiu no cardápio era substancialmente diferente, ainda que a mesma operasse também no ramo do brutal death metal. Com um som não tão técnico e mais tradicional, a lembrar um pouco Immolation, os Devangelic eram outra banda que tínhamos bastante curiosidade em ouvir e ver. Dois álbuns editados, sendo que o último “Phlegethon”, é um potente petardo que ao vivo ainda ganha mais poder. Apesar de ter havido uma debandada logo a seguir a Analepsy, os italianos foram sólidos (uma das actuações mais sólidas de todo o festival) e trouxeram de volta o público para a frente do palco e para a animação que depois se manteve constante até ao final do seu concerto. De coração cheio saiu a banda e o público e ainda havia mais para vir.

Outro grande nome, Prostitute Disfigurement, a elevar a qualidade do Xxxapada na Tromba, este sem dúvida uma das bandas mais aguardadas da noite. As expectativas não foram goradas já que o som esteve brutal. Em termos de qualidade, irrepreensível. A banda holandesa voltou a Portugal para um dos grandes concertos de todo o festival. “She’s Not Coming Home Tonight” parecia um rolo cilindro triturador mas além dos clássicos, os Prostitute Disfigurement também apresentaram novos temas que vão estar no sucessor de “From Crotch To Crown” de 2014, onde o seu death metal brutal continua tão acutilante tecnicamente como aquilo que têm feito até agora. Uma banda que nunca é demais receber no nosso país.

E agora para algo completamente diferente. Serrabulho. Sim, Serrabulho toca happygrind, goregrind ou como queiram classificar. No entanto aquilo que fazem e como o fazem não é comparável com as outras bandas. Serrabulho não é música. Serrabulho é festa que por acaso tem lá música pelo meio. “Porntugal”, o mais recente trabalho, é a motivação para um novo guião (nova intro, novas fardas de palco) mas por muito guião que exista, o elemento dominador é sempre o caos. A banda de Trás-Os-Montes tinha apenas meia hora para actuar mas mesmo com uma slot mais reduzida, tivemos a sensação de ter visto um concerto de três horas. “Ela Fez-me Um Grão de Bico” e “Fecal Torpedo” foram os destaques do já mencionado último álbum de originais mas não faltaram também já clássicos como “Sweet Grind O’Mine” e “Quero Cagar Mas Não Posso”. Também não faltou o comboio da praxe, almofadas rebentadas, Sérgio Páscoa e o seu bandolim a darem um toque especial ao “Rondó Turco” de Mozart como intro da “B.O.O.B.S.”, o tenebroso Ass Of Death (em vez da Wall Of Death), baile de máscaras em cima do palco e claro, o crowdsurfing de Carlos Guerra, o vocalista. Aliás, ainda o primeiro tema não ia a meio e ele já ia a navegar pelos mares revoltos do RCA Club. Na recta final da actuação, a organização do Xxxapada Na Tromba na figura da Rita Limede e Sérgio Páscoa agradeceram ao público pela presença, em inglês, já que grande parte do público era estrangeiro e ainda referiram que era o último nestes moldes mas que não seja talvez o fim. Talvez…

Uma actuação de uma banda portuguesa que mais uma vez colocou a fasquia bem alta. Tão alta que ficou que os PornTheGore soaram como a algo bem menos intenso embora visualmente pudessem ter também os seus atractivos fora do normal. Da Roménia para o RCA, uma banda que tinha tanto baixistas e guitarristas de fraldas como guitarristas vestidos à bailarina. Até tinha um elemento suplente que andava de um lado para o outro e depois ia trocando de instrumento com os outros companheiros de banda. A banda era conversadora e temas  como “Count Dickula” e “Red Beard Small Cock” foram desculpas mais que suficientes para provocar mais umas voltinhas no carrossel do mosh e embora tivesse sido uma diversão pálida em relação aos Serrabulho, acreditamos que foi um encerramento digno a um grande festival.

Para finalizar apenas algumas notas de apreciação em relação à edição de 2019 do Xxxapada Na Tromba. Termos um festival de música extrema em Janeiro, a ocupar dois dias no RCA, durante uma autêntica maratona e com nomes que apesar de fortes no underground, não são propriamente comerciais e esse festival ter adesão por parte de público (e principalmente por parte de público estrangeiro) como teve é sinal de um sucesso extraordinário e de uma organização que não falhou em ponto nenhum – os atrasos, não foram ao todo, em dois dias de festival, mais de dez minutos. Esperemos que o Xxxapada não fique por aqui porque festas assim merecem ser perpetuadas. Para já ficam na nossa memória.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos a Xxxapada Na Tromba
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