WOM Report – Yob, Wiegedood @ Hard Club, Porto – 27.10.18

Se é certo que YOB era a banda cabeça de cartaz e a razão que levou muitos a fazer muitos quilómetros para estarem presentes nesta data única, em Portugal, também é verdade que Wiegedood terá sido a razão de outros tantos se deslocarem ao Porto, à sala 2 do Hard Club, que esgotou duas semanas antes do concerto. Não estivesse já agendado um outro concerto para a sala um, bem a promotora poderia ter mudado de sala, para alegria dos muitos que, nas duas últimas semanas, se afadigaram pelas redes sociais em busca de um bilhete sobrante.

Quando, em 2015, Wiegedood apresentou o seu primeiro álbum no Amplifest, poderia ainda ser vista como a banda de elementos de outras já consagradas da Church of Ra, como Amenra e Oathbreaker. Em 2018, com mais dois álbuns lançados, não só deixaram de ser alvo de mera curiosidade como ganharam o estatuto de uma banda com plena identidade e com uma massa de seguidores crescente. As bandas que têm acompanhado em tour também dão prova do estatuto ascendente da banda, presentemente YOB, mas já antes com Belphegor (possivelmente, a mais próxima em termos de género, se bem que o Black Metal que ambas praticam seja distinto, manifestação evidente da multiplicidade de estilos que o próprio Black Metal encerra), tendo também passado por festivais de renome, como o Inferno Fest e o Roadburn, e preparando-se, agora, para seguir para uma tour nos Estados Unidos. No Porto, o trio mostrou ao vivo a razão pela qual se têm imposto na chamada “nova vaga” do Black Metal, género que eles assumem plenamente, até como forma de marcar a sua identidade e estabelecer uma fronteira com as restantes bandas a que pertencem. Foi um concerto intenso, quase sem interrupção entre os temas, sem qualquer saudação em quase uma hora de concerto, com os três elementos puxados para a frente do palco (bateria incluída) a criar uma barreira humana consentânea com a barreira musical que criaram: quem conhece a banda, conhece os riffs enérgicos e velozes e a bateria incansável e ininterrupta, em temas longos, de vez em quando entrecortados pela voz rasgada de Levy Seynaeve.

Aliás, o fabuloso “Ontzieling”, do segundo álbum, abriu um concerto impoluto, da parte da banda, que teria sido perfeito se alguns dos presentes no público falassem menos e a barreira de som debitada do palco não nos obrigasse a circular na sala para encontrar o melhor spot para encontrar o puro equilíbrio das duas guitarras, bateria e voz. A setlist, que passou pelo três álbuns, contou ainda com temas como “Cataract”, do segundo álbum, ou a homónima do terceiro (a “De Doden Hebben Het Goed III”), temas que trouxeram alguma acalmia, e apenas no seu arranque, ao ritmo frenético que atravessou toda a atuação, e ainda com a poderosa “Prowl”, finalizando com o único tema do primeiro álbum, “Ondergaan”, que encerrou a atuação, tal como no Roadburn e no Inferno Festival, com o amplo fôlego do seu black metal atmosférico. Concluída, com este álbum, a trilogia iniciada em 2014, aguarda-se com expectativa a direção que esta banda seguirá, assim como, desde já, o seu regresso.

Os YOB fizeram-nos ainda esperar um bom bocado pela sua actuação, mas assim o exigiu a necessidade de retirar todo o set montado para Wiegedood. Não foi uma espera incómoda, tanto mais que os espíritos se teriam de preparar para a transição musical. E a presença em palco dos próprios músicos, em particular de Mike Scheidt, sobre quem, naturalmente, recaíam todos os olhares, fizeram esse tempo de espera passar levemente. E, se bem que o estilo musical de YOB é manifestamente distinto do da banda belga, essa transição não foi tão abrupta quanto seria de esperar, passando de uma banda de black metal para uma de doom/sludge/stoner. YOB combina, na perfeição, a vibração rápida e densa do sludge com momentos de arrastamento, numa linha mais doom, mas também com uma componente progressiva vincada, assim como com momentos melódicos que parecem levar-nos à transcendência meditativa, influência esta a não menosprezar no processo criativo do mentor, Mike Scheidt. Tudo isto é YOB e tudo isto explica que, ao oitavo álbum, mesmo com uma interrupção forçada pela doença que quase se veio a revelar fatal, se possa dizer que a banda se encontra num grande momento, o que se sentiu quer no desempenho dos seus três elementos em palco, quer na qualidade deste álbum “Our Raw Heart”.

O concerto arrancou, precisamente, com o tema inicial, “Ablaze”, que deixa de imediato claro, a quem pudesse estar ali por acaso, aquilo que define a banda e já foi anteriormente referido: peso e leveza, velocidade e cadência arrastada, tudo embrulhado na voz rouca e também vibrante de Mike S.. Seguiu-se The Screen, com o seu riff insidiosamente repetitivo, como um mantra negro, também do novo álbum, tal como o belo tema homónimo “Our Raw Heart”. Os outros quatro temas, “Ball of Molten Lead”, “The lie that is sin, Grasping Air (que contou com a participação do vocalista de Wiegedood) e, para finalizar, a longa e  atmosférica Marrow, possibilitaram a viagem por quatro outros álbuns.

Quando o tema terminou, quando os aplausos terminaram, parecia que ninguém, nem músicos nem público, queria deixar a ligação que se tinha criado. Tanto o baixista, Aaron Reiseberg  (que simpaticamente se apresentou em palco com uma tshirt da cidade do Porto), como o baterista, Travis Foster, se deixaram ficar a cumprimentar o público e Mike S. foi ainda mais solícito, tendo-se sentado no palco a beber e a conversar com os muitos que dele se acercaram. Sabendo que vem de uma tour já longa, que continuaria no dia seguinte, maior o apreço por este gesto, pela sua simplicidade e humanismo.

Foi, pois, uma grande noite, com “apenas” duas bandas que, com os seus três elementos cada, mostraram que, por vezes, less is more. Os promotores, Amplificasom, estão de parabéns por não terem fechado os olhos à tour destas duas belíssimas bandas.

Texto e fotos por Fátima Inácio Gomes
Agradecimentos Amplificasom


 

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