Álbum do Mês – Setembro 2020

Álbum do Mês - Setembro 2020

O Verão está a definhar e a chegar ao fim, uma época atípica de um ano atípico, maldito até para o cenário da nossa música pesada, que nos privou de termos a celebração habitual da temporada. É certo que a música não parou de fluir aqui para estes lados. Aliás, nunca fluiu de forma tão furiosa, mas não deixamos de nos preocuparmos como será num futuro mais próximo de não a podermos celebrar ao vivo. Serve a consolação de termos tido mais uma luta renhinha para chegarmos ao nosso top 20. Não é grande consolação e não resolve nenhum dos graves problemas que temos pela frente. Que nos traga inspiração e força.

20 - Mercyless – “The Mother Of All Plagues”

XenoKorp

Os mestres do death/thrash francês estão de volta e com um estrondo. “Pathetic Divinity” foi um bom álbum mas “The Mother Of All Plagues”, o terceiro álbum desde o regresso em 2011, está sem dúvida num outro patamar. Aliás, tal como a capa (brutal!) evidencia. E tudo isto pela simplicidade, o som forte e poderoso mas longe de se mostrar plástico e feito em série. Há todo um feeling old school que é bem vindo e recebido por estes lados. É coisa para se tornar um vício em pouco tempo. Já o é.

9/10
Fernando Ferreira

19 - Psychlona – “Venus Skytrip”

Ripple Music

Não há que enganar, esta é mesmo para andar a viajar pelo espaço. À grande! O segundo álbum dos Psychlona traz-nos aquilo que já prevíamos, stoner junto a um forte feeling psicadélico que encaixa de forma perfeita. Tal como tudo o que é bom na nossa vida, este álbum flui de tal forma que nem damos conta que ele acabou. Ou melhor, damos conta mas não queremos acreditar. Não sei se é uma cena do espaço, de distorção das leis da física, mas o tempo é totalmente distorcido nestes quase cinquenta minutos. Nem se dá conta por ele passar!

9/10
Fernando Ferreira

18 - Entropy – “Liminal”

Crazysane Records / Broken Silence

O trabalho de estreia dos Entropy impressiona. Apesar do termo shoegaze não seja aquele que me é especialmente atractivo quando estou a saber mais sobre uma banda, é o que encaixa aqui bem, aliado ao velho rock alternativo. Sensibilidade para melodias vencedoras e para canções que têm tudo para sobreviver no tempo. Há um factor de intemporalidade aqui mesmo que muitas das vezes nos façam recordar da década de noventa. É a chamada intemporalidade parcial que ninguém leva a mal. Já há muito tempo que não tínhamos um álbum alternativo a marcar-nos tanto.

9/10
Fernando Ferreira

17 - Silius – “Worship To Extinction”

Rock Of Angels Records

Da Aústria temos thrash metal com enorme groove e peso, que é sempre como gostamos. Desde que o groove não signifique o sacríficio de solos de guitarra, o que não é o caso. Ao segundo álbum, a banda austríaca apresenta de forma bastante forte e com uma capacidade metálica acrescida. O facto dos temas em questão serem mais in your face e estarem apresentados de forma a que sejam mais memoráveis. A voz de Mottl não é a que mais nos texturas nos dá em termos de alcance mas ainda assim cumpre o seu intent na perfeição de nos deixar ainda com mais pica para o mosh – se é que ainda nos lembramos como isso se faz. Missão cumprida.

9/10
Fernando Ferreira

16 - NonExist – “Like The Fearless Hunter”

Mighty Music

Johan Reinholdz está de volta com os seus NonExist para aquele que é o seu quarto trabalho, intitulado “Like The Fearless Hunter”. Quem ouve este disco, tem mesmo de estar preparado para ficar arrasado quando acabar a audição. Pois as doze faixas que o compõe são de uma agressividade sonora tal que nos deixam de rastos, mas com um sorriso, pois se há músico com capacidade para isto é Johan. Reinholdz assumiu agora os vocais e o melhor a fazer para perceber a diferença é começar a ouvir a rasgada e destruidora “Strictly Sadistic Intent”, abertura digna que nos guia para processos por vezes sombrios, cheios de sons hardcore, punk, death, numa combinação única e fortemente conseguida. Por aqui vão surgindo participações de nomes de peso como Mikael Stanne (Dark Tranquillity), Rogga Petersson (Merciless), Chris Amott (Dark Tranquillity, ex-Arch Enemy) e Markus Johnsson (Eucharist), só para citar alguns. Não percam!

10/10
Miguel Correia

15 - Dunwich – “Tail – Tied Heart”

Caligari Records

Enorme surpresa esta. Os Dunwich chegam da Rússia e conseguem surpreender-nos de forma única. Isto porque têm um som que é praticamente impossível de rotular com toda a certeza e se em dizer “mistura disto com aquilo”. O doom (mais rock que metal) poderá ser o estilo que em termos de som mas depois temos o som gótico (arraçado de pós-punk) para dar a atmosfera. Duas referências sonoras para algo que se aproxime mais daquilo que conseguimos encontrar em “Tail-Tied Heart”, mas há muito mais por aqui. Para já, o encanto que é a voz de Margarita Dunwich, que tanto vai de um tom sedutor e belo como de um grosnar à la Cadaveria, que ainda arescenta charisma a um trabalho só de si já rico. Um álbum que enfeitiça!

9/10
Fernando Ferreira

14 - Volcanova – “Radical Waves”

The Sign Records

Excelente trabalho dos Volcanova. “Radical Waves” é stoner/doom tal como o stoner/doom nos foi apresentado no final da década de noventa, antes de se tornar uma moda. Com o fuzz no máximo e com grandes grooves a apelar ao deserto. Tendo em conta que é uma estreia, deixam desde já uma boa impressão. A melhor que poderiam deixar. Para quem gosta deste tipo de coisa, este é um candidato a clássico e acreditem, isto não é puro entusiasmo de andar a ouvir este disco non stop nos últimos tempos. Recomendadíssimo.

9/10 
Fernando Ferreira

13 - Venomous Concept – “Politics Versus The Erection”

Season Of Mist

Este título e esta capa, não poderia ser mais irónico e sarcástico. Uma capa que até nem precisa de comentários, apenas contemplação. Caso houvesse dúvidas, ficam já desfeitas em relação á acutilância desta super banda. Sim, os Venomous Concept continuam bem venenosos e com aquele espírito crust/grind/punk bem acentuado. Tal como nós gostamos. Isto em ano em que os Napalm Death voltam, até nos faz sentir mimados, mas mesmo que a seminal banda britânica não lançasse nada, “Politics Versus The Erection” continuava a ser um ponto alto deste ano de 2020. Deliciosamente viciante, para ouvir em loop.

9/10
Fernando Ferreira

12 - Prins Svart – “Under Jord“

Musica Ex Machina

Que grande álbum hard rock. O nome induz em erro porque dá-nos a ideia de que vamos estar perante uma entidade de black metal ou coisa que o valha. Mas não, o que se tem é mesmo hard rock tanto musculado quanto melódico e sensível. É atípico. Para nós, claro está, que estamos a tomar contacto com eles com este trabalho, mas sendo já o terceiro, não deverá ser novidade para os fãs da banda. Algumas participações especiais, onde destacamos Mats Levén (ex-Candlemass), e uma fórmula de compôr temas imbatível. Até o cantar em sueco nos parece bem. Excelente surpresa.

9/10
Fernando Ferreira

11 - Vanishing Point – “Dead Elysium”

AFM Records

Mais de seis anos depois do lançamento de “Distant Is The Sun”, os Vanishing Point estão de volta com o sexto álbum “Dead Elysium”. Este disco é uma revisita aos sons épicos, cheios de power, guitarras pesadas e elementos orquestrais bem conseguidos, num retorno épico da banda de metal melódico mais icónica da Austrália. Daqueles que rotulamos de obra de arte. Valeu a espera, sem dúvida!

10/10
Miguel Correia

10 - Year Of The Knife – “Internal Incarceration”

Pure Noise Records

Porrada, da bruta e da grossa, tal como nós gostamos e até precisamos. Year Of The Knife é um belo festim de porrada unidimensional, onde o hardcore se une ao death metal e até ao crust para nos cair em cima como se fossem as sete pragas do Egipto a atacarem todas ao mesmo tempo. A produção de Kurt Ballou também garante que essa porrada seja bem acutilante. É um disco, como já disse, unidimensional, mas que definitivamente não cansa e não impede que depois de chegado ao final se volte atrás para dar mais uma volta (ou duas). Discos que marcam.

9/10
Fernando Ferreira

9 - Grumpynators – “Still Alive”

Mighty Music

Yeahhhhhhh! Bem, este disco é daqueles que te deixam bem disposto por dias! Verdade, por dias, porque não consegui parar de o ouvir. Surpresa total! Mas vamos lá falar dos dinamarqueses de nome esquisito, Grumpynators…com um som onde se pode reconhecer desde a inspiração country, ao punk, ao heavy-rock rigorosamente bem executado, cheio de adrenalina, que nos faz saltar em cada batida, muito alegre e contagiante. Ao ouvir a faixa de abertura, “Still Alive”, a banda abre-nos a porta do seu mundo e a mensagem é deveras poderosa para os fans: eles estão vivos e bem vivos! Tudo rola de forma perfeita até à ultima faixa, “Back On The Road”, algo que neste momento não é de todo possível, mas a intenção é a de deixar a sua marca por onde passarem. “In your face, in your mind!”

10/10
Miguel Correia

8 - Aleynmord – “The Blinding Light”

AOP Records

Há certas coisas na arte (e dentro disto englobamos muita coisa) que ao primeiro contacto sabe-se que se está perante algo especial. Talvez algo na moda, talvez algo diferente e inesperado. Essas avaliações surgem normalmente depois. No caso dos norte-americanos Aleynmord isso aconteceu, com este “The Blinding Light” onde temos várias paisagens que vão do black metal depressivo a um ambient/prog/neo folk (cuidado com os rótulos, refiro-me ao tema-título). Apesar de serem quatro longos temas (o já citado tema-título é o mais curto), fica-se com espaço ainda para ouvir mais. É também a primeira vez que vemos alguém cantar a chorar – a sério, parecem lamentos os gritos de C. Nihil – num disco onde não há falta de dinâmica na entrega vocal. Tudo junto dá-nos um grande álbum de black metal melódico – ou pós-black metal, como queiram encarar a coisa de forma mais positiva ou negativa.

9/10
Fernando Ferreira

7 - Incantation – “Sect Of Vile Divinities”

Relapse Records

Os mestres do death metal blasfemo estão de volta. Os Incantation são uma das bandas de death metal old school norte-americanas mais subvalorizadas de sempre. E ainda assim, nunca pararam nem nunca desiludidram em relação à regularidade dos seus lançamentos, quer em quantidade quer em qualidade ainda que existam algumas flutuações. “Sects Of Vile Divinities” não é um desses casos. Aliás, nesse aspecto, este talvez seja um dos álbuns mais coesos da banda – isto tendo em conta que a banda tem vindo de uma série de álbuns bem conseguidos. O factor que realmente salta aos nossos ouvidos é a forma como soa dinâmico, com o groove dos momentos mais compassados a interligarem-se de forma perfeita com os mais uptempo. É um dos grandes álbuns death metal de 2020, sem dúvida.

9/10
Fernando Ferreira

6 - Hecate – “In Nomine Artem Blackium”

Edição de Autor

Ambicioso segundo álbum dos egípicios Hecate. Black/death metal melódico e sinfónico a fazer lembrar uns Septicflesh, com as devidas distâncias. É fácil hoje em dia uma banda perder-se no mundo dos samples orquestrais e depois acabar por se esquecer de fazer músicas que para além de captarem a nossa atenção com momentos bombásticos e cinematográficos, também consigam ter canções que perdurem para além dessa boa (ou não) primeira impressão. Felizmente os Hecate mostram não estar reféns deste quesito embora a compomente sinfónica seja uma enorme parte do que se pode ouvir aqui. As duas componentes encaixam de forma perfeita, como se fossem apenas um e é de tal forma grandioso que só consigo imaginar isto a ser tocado em casa, tal como está a soar neste preciso momento. Tocado ao vivo, tem de ser com orquestra. De outra forma julgo que perca grande parte do impacto. Por falar em orquestral, temos ainda um segundo cd com as versões orquestrais intrumentais, que são interessantes, reforçando ainda mais o lado cinematográfico da coisa mas que não é mais do que um apontamento de curiosidade já que o “the real deal” está mesmo no primeiro CD.

9/10
Fernando Ferreira

5 - Vicious Rumors – “Celebration Decay”

Steamhammer

É sempre motivo de celebração quando se tem uma banda icónica, como é o caso dos Vicious Rumors, a brindar-nos com música nova. A evolução da banda norte-americana nos últimos anos tem sido impressionante, conseguindo suportar bem a passagem dos tempos, como ir modernizando o seu som de forma natural, onde o thrash metal costuma ser um ponto de paragem. “Celebration Decay” não é excepção, mostrando mais uma vez como o poder do metal tanto se pode revelado com músculo (ou seja riffs e poderio rítmico acentuado) assim como pela graciosidade (onde as harmonias e os leads falam bem mais alto. Os Vicious Rumors são a prova daquela máxima “algumas coisas apenas ficam melhores com a passagem do tempo”. Fantástico, simplesmente.


9/10
Fernando Ferreira

4 - Over The Voids – “Hadal”

Nordvis

O início quase bucólicopastoral deste álbum quase que nos fez enganar. Começa com “The Pillar”, um momento acústico quase minimalista. “One Commandment” chega logo de seguida, onde o tremolo picking assume o comando, e muito bem. Black metal dinâmico e, sim, porque não dizer, levemente melódico, mas sem cair em exageros porque o seu ponto forte é mesmo a forma como se insinuam na nossa memória. Simplicidade impressionante mas uma eficácia ainda mais superior. The Fall, que também está presente nos Medico Peste e nos MGLA (como músico de sessão ao vivo), tem um enorme talento e este segundo álbum serve para deixar isso bem claro.

9/10
Fernando Ferreira

3 - Exist – “Egoiista”

Prosthetic Records

Som desafiante. É sempre esse o meu calcanhar de Aquiles. A música que nos causa confusão, que nos deixa soltar, ainda que de forma distaída ou inaudível, um “que raio se está a passar aqui?!” Não é que “Egoiista” seja completamente revolucionário – até porque algumas coisas revolucionárias precisam de anos em cima para que lhes reconheçamos o valor. Não é de todo o caso aqui. O grosso do álbum já existe há bastante tempo, sendo até anteriores aos que fizeram parte do anterior, com apenas dois temas novos a se juntarem. Algo que não se nota, já que os temas antigos foram completamente renovados. A forma como a componente técnica (e em muitos aspectos jazzística, ainda que de fusão) se junta a algo mais extremo (algures entre uns Death e uns Cynic) não é propriamente nova mas não deixa de soar refrescante. A cada audição.

9/10 
Fernando Ferreira

2 - Law Of Contagion – “Woeful Litanies From The Nether Realms”

Moribund Records

É sempre bom quando temos mais uma nova banda ou até mesmo projecto, neste caso, uma one-man band a surgir nos escaparates. Law Of Contagion apresenta-se pertante o público e logo com um álbum de estreia. A figura central aqui é Ishkur, multi-instrumentista que já é conhecido do underground nacional de bandas como Sonneillon BM e Nefret e que já passou por bandas como Acceptus Noctifer e Revage entre muito outros. Apesar de não deixar para trás por completo as sonoridades negras, o seu foco está agora também no death metal, uma mistura equilibrada que nos traz algo de refrescante embora não seja propriamente nada de novo. Imaginem um “Soulside Journey” misturado com uns Mayhem do antigamente, havendo muitas mais referências que se possam fazer. Mesmo para quem não acha piada à mistura destes dois reinos, garante-se que vai crescer ao ponto de não se querer outra coisa.

9/10
Fernando Ferreira

1 - Black Crown Initiate – “Violent Portraits Of Doomed Escape”

Century Media Records

Fantástica capa! Assim é como se chama atenção de um fã de música, carregando nos botões correctos. E em termos musicais, acontece o mesmo. Em dois álbuns, a banda norte-americana conseguiu levantar as orelhas de todos os que apreciam de death metal progressivo, até que seguiu-se um silêncio de quatro anos que foi quebrado da melhor forma. E numa nova casa, a Century Media. Seguindo de perto o mito do terceiro álbum, que tem o poder de ditar como vai ser a carreira de uma banda, “Violent Portraits Of Doomed Escape” é uma obra prima, um álbum que nos coloca entre a melodia e o peso mas não nos obriga a escolher. Mostra que os dois podem viver em harmonia. Isto com as emoções a serem muito bem exploradas. Um trabalho que não cansa, que nos relembra tempos idos do estilo e que nos faz sentir o entusiasmo que tínhamos na altura e que até já julgávamos ter perdido.

9.5/10
Fernando Ferreira

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