WOM Report – Dream Theater @ Campo Pequeno, Lisboa – 02.02.20

Não é necessário dizer o quanto esta noite seria muito aguardada pelos fãs de Dream Theater. Sabemos que todas as bandas são afectadas pela nostalgia, algures na sua carreira, principalmente numa certa fase da carreira e nem os Dream Theater são imunes. Apesar desta digressão ser sobretudo para promover o mais recente trabalho “Distance Over Time” (um salutar regresso à boa forma, após a decepção que foi “The Astonishing”), a banda não deixou de aproveitar a oportunidade de celebrar com os seus fãs um dos seus trabalhos mais queridos, “Metropolis Pt2: Scenes From A Memory”, um álbum tudo ou nada para a banda em 1999 e que acabou por catapultá-los para uma década onde se estabeleceram com uma das maiores e principais forças de metal progressivo a nível mundial.

O significado pessoal deste concerto era parecido com o dos muitos presentes que não tiveram oportunidade de ver o concerto na Aula Magna em 2000 por este ter esgotado. Vinte anos depois, era tempo de experienciar um dos grandes álbuns conceptuais do rock/metal. No entanto e como já disse atrás, não se tratava apenas disso, já que havia um álbum de excelente qualidade também para promover, álbum esse que acabou por estar no centro das atenções na primeira hora do concerto. As expectativas eram alta, pelo menos seria o que cada um dos espectadores sentia, mas tornou-se palpável quando as luzes se apagaram e os gritos de entusiasmo se fizeram ouvir (e de que maneira) pelo campo pequeno. Uma intro dos “Two Steps From Hell” acompanhou a animação da tela gigante atrás da banda que acompanhou a actuação do concerto.

Os aplausos foram efusivos com a “Untethered Angel” que se revelou como uma excelente abertura de hostilidades tanto ao vivo como o é em disco. Som bem alto e poderoso que esteve sem qualquer tipo de falhas ao longo das três horas, havendo apenas talvez a reclamar a voz de James LaBrie um pouco nada demasiado elevada em certas ocasiões. A recepção do público foi desde logo esmagadora, a dar indicação de que não era apenas a nostalgia que tinha enchido o Campo Pequeno, embora quando tocaram o épico “A Nightmare To Remember” percebeu-se que os clássicos são sempre os clássicos. E nada mais clássico do que também termos Jordan Ruddess a solar no seu keytar, algo que fez por diversas vezes. LaBrie dirigiu-se então ao público pela primeira vez, referindo como era bom voltar a Lisboa após dez anos, algo que o público lhe confirmou quando perguntou há quando tempo não visitavam a nossa capital – na realidade foram oito anos, já que a última vez foi em 2012, no Coliseu de Lisboa.

Não seria necessário elogiar o nosso país e cidade, porque a música falava por si própria. E por falar em clássicos, inesperado foi a inclusão de “In The Presence Of Enemies, Part 1”, um tema que não tem por hábito aparecer nos alinhamentos. Surpresa bem vinda, todos concordaram. De “Distance Over Time” foi dado o destaque a “Fall Into The Light” (no dia anterior, em Gondomar, tocaram “Paralyzed”), “Barstool Warrior” e “Pale Blue Dot”  – este último com excelentes solos por parte de Petrucci e Ruddess. A aposta nos novos temas foi definitivamente ganha assim como a confiança (fundada) no seu mais recente trabalho foi recompensada, com uma recepção à altura.

Intervalo enquanto se aguardava o grande o momento. As luzes acenderam, a animação da tela mostrava uma casa com tons sépia e das colunas ouvia-se ragtime, como se estivessemos de volta a 1928. Num ápice a viagem tornou-se real para a história de Victoria Page, e os irmãos Baines que terminou de forma tão trágica, assim como para Nicholas, personagem principal. O público esse fico logo em alvoroço. E não era caso para menos, afinal estavamos perante a apresentação de um dos momentos altos da sua carreira. A regressão hipnótica começa e somos guiados para “Overture 1928” e “Strange Déjà Vú”. E estavamos lá, tinhamos embarcado também para dentro da história.

Devo dizer que as animações foram um ponto positivo na apresentação do álbum, mas foi a música que falou sempre mais alto. “Beyond This Life” foi gigante e “Through My Eyes” lindissima onde se sentiu a falta de Mike Mangini na bateria – na versão original a percussão é programada e foi essa a opção que usaram aqui embora tivesse preferido a versão acústica. Curiosidade para a homenagem a várias lendas da música entretanto desaparecidas e que influenciaram a banda, como Neal Peart, David Bowie, Frank Zappa e Freddie Mercury entre muitos mais outros. Foi precisamente com “Through My Eyes” que terminou o primeiro acto e James LaBrie ficou em palco, a falar com o público e a falar um pouco sobre o conceito e os temas universais do álbum que estavam a homenagear naquela noite. Ainda pediu ajuda do público para ajudar no refrão de “Home”, o tema que deu início ao segundo acto.

“Home” é um daqueles épicos incontornáveis, assim como a “The Dance Of Eternity” é pura diversão para os amantes de música instrumental, mas é a “Spirit Carries On” o momento definitivo e mais pujante de todo o álbum, daqueles capaz de emocionar qualquer um. E foi arrepiante ver o Campo Pequeno, iluminado com os telemóveis (os novos isqueiros do século XXI), com um momento de comunhão de arrepiar. A história acabaria com “Finally Free” e aclamação foi universal. No entanto não ficariam muito tempo longe do palco e o encore veio logo com outro dos bons momentos de “Distance Over Time”, “At Wit’s End”. Talvez não fosse o tema que se esperaria para por um ponto final no concerto – seria o expectável acabarem com o clássico – mas dada a qualidade do tema e a recepção do mesmo (e tudo o que já tinha sido visto e ouvido atrás), foi absolutamente apropriado. As luzes apagam-se a multidão dispersa, mas o impacto será sem dúvida para recordar. Mais um pedaço de história criada para todos os fãs de metal progressivo.

Texto por Fernando Ferreira
Agradecimentos Everything Is New


 

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