WOM Report – Oeste Underground Fest @ Pavilhão Multiusos da Malveira, Malveira – 02.11.19

A quarta edição do Oeste Underground Fest prometia ser a mais forte. Conjugação de um cartaz que reunia bons nomes entre o melhor que se faz no nosso underground e com duas propostas internacionais de valor acrescentado. Ao longo das últimas semanas temos vindo a apresentar, com a ajuda preciosa e imprescindível da organização do festival, as várias bandas e esse exercício permitiu-nos ter uma percepção ainda mais real da qualidade musical da proposta deste ano. Uma proposta que se concretizou e materializou na realidade naquela que foi – na nossa opinião e sem qualquer acesso a dados oficiais – a melhor de sempre.

E logo de início se teve essa percepção. Como já tinha sido revelado na entrevista que a banda nos deu, os Phreneticis deram o primeiro concerto da sua carreira e o mesmo não poderia ter sido melhor. Indicador de várias coisas. A mais evidente, da qualidade da banda de Odivelas. A nível individual e pela química que revelaram ter. Death metal progressivo e técnico mas com verdadeiras canções, cheias de dinâmicas. Muito por onde crescer e evoluir mas a base com que partem já é de nos deixar impressionados. Queremos definitivamente ouvir mais deles e ouvir no conforto do nosso lar temas como “Maze Of Time”. Tratem disso, por favor.

Os Dharma também foram uma agradável surpresa quando investigámos a fundo o cartaz desta edição do Oeste e conforme o que dissemos quando analisámos o segundo EP “Obselete” – ver a crítica aqui – a banda consegue revitalizar um género ou fórmula que alguns consideram estar já algo cansada. Misturando elementos de metal, hardcore, metalcore, o resultado é um som rico que nos mantém interessados em todas as vertentes. Infelizmente com o facto do som estar um demasiado elevado perdeu-se grande parte dos pormenores de músicas como “Waterfall”, com as dinâmicas que nos fascinaram a passarem despercebidos. Apesar disso, a banda conseguiu afirmar-se. Senhores promotores, ponham os olhos e ouvidos nesta banda porque os Dharma são um diamante à espera de ser descoberto. É uma questão de tempo.

Thrash metal, ou como costumamos dizer thraaaaaaaaash, é daquele tipo de sonoridade que normalmente cai-nos sempre bem. Os Wicked não contrariam a tendência, apesar de, infelizmente, também terem usufruído de um volume elevado que não favoreceu aquilo que a banda entregou em cima do palco. Não favoreceu mas também não impediu que tivéssemos um belo bailarico. Com o novo EP “Warning Shot” quase a ver a luz do dia, a banda do Porto tem um toque tradicional da década de oitenta que nos soa bastante bem e até traz uma certa lufada de ar fresco. Sendo a primeira vez que os vimos ao vivo, ficámos (ainda mais) fãs e com uma expectativa maior para o já mencionado EP.

Com os Congruity entrámos numa trilogia demolidora de power trios que, apesar de tocarem todos géneros diferentes, tiveram actuações irrepreensíveis. A mistura entre death e black metal da banda de Abrantes fluiu de forma natural, muito graças às fortes dinâmicas que os seus temas possuem. Com midtempos trituradores e as explosões de porrada sonora, temas como “Thy Funeral” e “Path Of Darkness” permitiram que o público ficasse agarrado. O facto do som também ter estado no ponto ideal em termos de volume, também fez com que o impacto tivesse sido superior e  aumentou a eficácia do poder que a sua música já tem em estúdio. Demoraram a chegar ao álbum de estreia, auto-intitulado lançado no ano passado, mas com este poder todo só temos a dizer que valeu a espera.

Já os Basalto são um mundo aparte. Como já é sabido, o doom é um género que normalmente não é apreciado em festivais, onde as sonoridades mais directas e uptempo acabam por reunir as preferências. No entanto, ainda está para vir o dia/noite/concerto/festival/cartaz onde os Basalto não furem por completo essas expectativas. As nossas eram bem diferentes e foram todas cumpridas. Tivemos temas longos, três deles, com uma capacidade invejável de manter todos agarrados ao som cavernoso, compassado, mas ainda assim dinâmico da banda de Viseu. A cada apresentação sua, evidenciam-se num ponto acima em relação ao anterior e este, apesar de curto foi suficiente para ser uma das bandas da noite.

A finalizar a trilogia de power trios, tivemos os Skinning. A banda nortenha, já com dois álbuns às costas, é dona de uma sonoridade de death metal bruto e sem contemplações, embora os pormenores técnicos estejam sempre presentes. Tal como já nos tinham dito aquando da entrevista que deram como antevisão do concerto (conferir aqui), o foco do mesmo foi totalmente o terceiro álbum “Homicidal Experimentations” que está prestes a ver a luz do dia e cujo ciclo foi iniciado precisamente ali. A banda evidenciou-se bem coesa e com um poder de fogo temível, o que só fez com que as nossas expectativas fossem ainda maiores. Com o som a colaborar no volume certo, mais uma actuação memorável para a posteridade na história do Oeste Underground Fest.

Também do norte de Portugal vinham os Biolence que provaram ser uma mais valia em qualqur cartaz. Com a violência sónica a bater nos píncaros e com um som que permitia com que a mesma fosse recebida com agrado, a banda de Vila Nova De Gaia impressionaram pela eficácia. Alternando temas da estreia “Violent Non Conformity” com o mais recente “Violent Exhumation”, o alinhamento foi um festim para aqueles que estavam ávidos por acção. Acção foi certamente o que não faltou com “Devoured”, “Unholy Descendants Of War” e “Merda” – esta última a ser uma explosão metálica bem bruta. Também houve ainda tempo para uma cover de Asphyx, “Deathhammer”. Bom entrosamento da banda, peso e solos com fartura. Não há muito mais que se precise para se ser feliz.

Era a vez da primeira banda internacional da noite, os britânicos Valafar. A banda mostrou-se desde o início grata pela recepção que tiveram no nosso país e principalmente pelo público. Com um death metal levemente melódico e de inspiração pagã, a banda inglesa apresentou ao público nacional pela primeira vez os seus dois álbuns, “Helheim” de 2015 e “Wolfenkind” que o recebeu bem tanto temas de um (“Forged In Iron”, “Death From Within”) como de outro (“Brotherhood Of The Wolf”, “Ballad Of Plainfield”), terminando com aquele que foi, na nossa opinião, o melhor tema de toda a actuação, “Born Of The Nine”. Uma estreia nos nossos palcos que, esperemos, seja a primeira de outras.

Os Corpus Christii eram outro dos grandes atractivos para esta edição. Não só a banda de Nocturnus Horrendus escolhe a dedo os concertos que dá como também era a primeira vez que actuavam na terra natal do carismático frontman. Apresentando-se em palco com uma formação renovada, em que Angel-O (dos Nethermancy entre outros projectos) volta a fazer parte da encarnação da banda ao vivo. O alinhamento foi espalhado pelos trabalhos mais recentes, estando em evidência os dois últimos álbuns “Pale Moon” e “Delusion”. Agraciados por um som perfeito para que a missa fosse entregue da melhor forma, os salmos na forma de “The Infidels Cross” e “Chamber Soul” trouxeram-nos a luz das trevas à qual não faltou um dos grandes clássicos da banda, “The Fire God”. Outro dos momentos mais memoráveis da noite.

Bem rodados nos palcos nacionais e já há muito tempo que são uma máquina temível de espalhar porrada sónica, os Destroyers Of All entraram com tudo e “Tohu Wa-Bohu” foi o primeiro de uma sequência explosiva do mais recente álbum de originais, “The Vile Manifesto”, o centro das atenções por parte da banda conimbricense que estava particularmente letal e tiveram também eles irrepreensíveis. Além do já mencionado último trabalho, a banda também teve cirúrgicas incursões ao passado mais distante através das já clássicas “Into The Fire” e “Hate Through Violence” que foram bem acolhidas por parte do público que estava sedento pela mistura já característica sua dos vários géneros de música extrema. Daqueles concertos que não nos importávamos que durasse mais tempo.

Na recta final tivemos os Gwydion, uma das bandas fortes do cartaz e que tinha atraído até ao Oeste muitos fãs. Infelizmente as coisas não correram pelo melhor, começando no tempo elevado que foi gasto na preparação da actuação e que depois obrigou a banda a encurtar a mesma de forma a respeitar o horário. Outro problema e o mais grave, pelo menos para os nossos ouvidos, foi o volume absurdamente elevado com que a banda tocou. A tocar sem baixista (pelo que pudemos perceber, Bruno Ezz não pôde estar presente) e as duas guitarras e teclados a formarem uma bola indecifrável de ruído, era a voz que nos dava os indicadores para reconhecer temas como “793”, “Brewed To Taste Like Glory” e a “Mead Of Poetry”. Apesar das condições não serem as ideais, o público não deixou de fazer a festa que já é lendária destes mui nobres guerreiros lusitanos.

Para colocar um ponto final era a vez dos britânicos Basement Torture Killings subirem ao palco, eles que já tinham aquecido o norte de Portugal (no Coronado Extremo) na noite anterior. O death/grind é um estilo que tem marcado presença no cartaz do Oeste Underground e este ano não foi excepção sendo que a banda inglessa foi aquela que mais alto elevou essa bandeira. Com uma frontwoman com uma voz dos infernos e com forte componente teatral (destacamos o desmembramento do urso de peluche e da distribuição das suas entranhas pelo público) e com o restante trio instrumental a despejar grindalhada de qualidade insuspeita – com inspirados solos de guitarra a torto e direito), a enxurrada de porrada metálica foi a forma perfeita de despedida de mais uma edição.

Como balanço e tal como dissemos inicialmente, esta pareceu-nos ser uma das melhores edições de sempre, onde o público atendeu ao chamado de ajudar os Bombeiros Voluntários da Malveira, esse que continua a ser o objectivo central e a razão de ser do Oeste Underground Fest. O facto da autarquia ter estado presente e de através da Dra. Aldevina Rodrigues, por parte da Câmara Municipal de Mafra, e de Vítor Gomes, por parte da Junta de Freguesia da Malveira, como forma de agradecimento a todos os que estavam presentes e à iniciativa também nos dá sensação de justiça de reconhecimento por todo o esforço por parte da organização. Algo que deverá ajudar para continuar a trabalhar e lutar pelo que se acredita.

Texto Fernando Ferreira
Fotos Sónia Ferreira
Agradecimentos Oeste Underground Fest


 

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