WOM Report – Satanic Surfers, Artigo 21, ContraSenso @ RCA Club, Lisboa – 06.06.19

Alguns poderão não dar valor à nossa missão. Poderão encarar tudo como apenas uma brincadeira, apenas um passatempo, no entanto, para nós é uma oportunidade de imortalizar momentos através das nossas palavras, através das nossas fotos. E se uma imagem vale por mil palavras, as palavras ajudam a aprofundar sentimentos expressos nas fotos. Raramente nos deparamos com o terrível dilema da página em branco mas perante essa responsabilidade que nos orgulhamos de trazer sobre nós próprios e perante uma noite tão épica o peso dessa responsabilidade ainda era maior. Foi a noite em que os Satanic Surfers voltaram a Portugal após mais de uma década de ausência e que foram muito bem coadjuvados pelos valores nacionais de excelência dos Artigo 21 e dos ContraSenso. Ou seja, punk rock no seu melhor.

Quando a noite começou, a sala ainda estava a meio gás. Algo que os ContraSenso certamente não mereciam. A banda traz-nos punk rock cantado em português cheio de raça. O auto-intitulado álbum de estreia lançado no ano passado foi o óbvio destaque onde a energia também desempenha um papel importante. Apesar de alguma apatia aparente por parte do público em termos de movimento, não faltaram os aplausos a temas como “Um Segundo”, “Reviravolta” e “Crescer de Novo”. A experiência destes músicos era mais que nunca (um deles, Daniel Hipólito, guitarrista e vocalista, é também membro dos Artigo 21 que tocariam de seguida) e a sua habilidade para lidar com públicos mais “frios” também.

Apesar dos pedidos para que se chegassem à frente do palco, o público, este, estava algo tímido mas ainda assim a banda agradeceu a presença de todos que vieram apoiar também as bandas de abertura. Um concerto que só não foi perfeito por acharmos que o som estava algo demasiado alto – desde quando é que isso é uma queixa, poderão pensar. Nem algumas questões técnicas tiveram peso, como o facto do monitor do baixo de Gonçalo ter pifado. Como o mesmo disse após algum tempo para tentar resolver a situação – “Siga, punk é punk.” Mais nada! O fim da actuação deu-se com uma versão surpresa do clássico “Generator” dos Bad Religion, influência maior da banda (e arrisco a dizer, de todas as bandas da noite) e com a participação de João (vocalista dos Decreto 77 e um dos responsáveis pela Infected Records) na voz. Uma saída em grande, de uma grande banda de punk rock nacional.

A mudança de palco foi rápida e notou-se algum acréscimo em termos de público. A nossa expectativa era que houvesse mais acção e movimento entre o público para receber os Artigo 21 (que fazem parte de uma das bandas deste mês na nossa WOM Magazine). Tal não parecia que ia acontecer, com o primeiro tema debitado – “Ilusão”, tema-título do último álbum de originais da banda que também acabou por ser o grande destaque. Já temos falado da qualidade deste álbum (definitivamente que fará parte do nosso já lendário lote de escolhas dos melhores do ano) mas quando temos uma sala inteira a cantar temas como “Só Mais Um Bocado”, definitivamente não estamos sozinhos na nossa crença, muito menos a ser generosos.

E aquela sensação de que a apatia ainda imperava depressa se foi conforme tocaram “Ser Capaz”, tema de abertura do álbum de estreia auto-intitulado. Estalou a confusão, aquela confusão que pertence e dá energia a todos os presentes mas principalmente à banda. Apesar de ainda não se chegarem à frente do palco, havia menos timidez para receber os autênticos hinos como “Fantasma” (que malhão este), “Nada A Perder” e “A Nossa Voz” que fechou de forma perfeita uma actuação curta (sempre curta) onde nos apetecia sempre ouvir mais temas mas que nem os precalços como a corda da guitarra de Xico partida minimizaram. Nada nos dá mais prazer que ver uma banda que trabalha em prol da sua paixão ser recompensada com a energia e entusiasmo do público. Paga mais que merecida.

Duas excelentes bandas para fazer o aquecimento. Missão cumprida. Agora era a hora de ver um dos grandes nomes do punk europeu: Satanic Surfers. Começando com “The Treaty And The Bridge”, do álbum de estreia “Hero Of Our Time”, um trabalho que seria muitas vezes visitado ao longo do alinhamento da noite para o regresso dos suecos ao nosso país, a animação foi imediata. Autênticas batalhas campais onde os intervenientes tinham todos um sorriso nos lábios. Uma visão digna de ser vista, a confusão generalizada que enche a alma de qualquer punk rocker. Fosse qual fosse o tema escolhido, o resultado era sempre um mesmo. Desde um “Egocentric” do obscuro “Skate To Hell” dos primórdios da carreira da banda até um “The Usurper”, do último álbum de originais “Back From Hell”, tudo era motivo para crowd surfing, mosh e todas as coisas inererentes a isso.

A dedicação deste público foi épica e cada música apresentada era como se fosse o reencontro com velhos amigos. Várias visões ficaram memorizadas e outras que foram criadas como que consequência. Uma delas foi de tentar acompanhar uma pessoa (qualquer uma) no meio do público que criou a imagem mental de uma noz a tentar manter-se à tona nuns rápidos de um rio qualquer intocado pela natureza. Porque estamos a falar de uma força de natureza no final de contas. Um força da natureza punk que esteve demasiado tempo sem se manifestar no nosso país – a esse respeito, a banda afirmou que definitivamente não iriam ficar mais treze anos sem voltar ao nosso país. Quase que podemos apostar que qualquer pessoa presente diria que se fosse no dia seguinte estaria lá. E nós também.

O som só pecou pela voz de Rodrigo Alfaro estar um pouco mais baixa do que seria desejável mas por outro lado, as vozes dos fãs cantavam (gritavam!) alto o suficiente para que conseguíssemos ouvir clássicos do punk como “Puppet” e “… And The Cheese Fell Down” de formna ainda mais arrepiante.  Passadas (apenas) dezasseis músicas, parecia impossível que o concerto chegasse ao fim. Sabia a pouco. De uma forma criminosa, merecedora de pena de prisão. O público não se conformou e “obrigou” a banda a voltar – já não somos ingénuos a este ponto de não pensar que coisas são mais planeadas que espontâneas mas houve uma fluidez que nos deu a indicação de que seria opção da banda voltar ou não ao palco.

Voltaram para dois temas, “Nun” e “Armless Skater”, afirmando que seriam os últimos da noite mas mesmo depois da recepção calorosa e festiva destes dois clássicos, a sensação que ficou foi a de que seriam necessários bem mais temas para que o público ficasse satisfeito e até ficamos solidários porque efectivamente soube a pouco. A banda abandonou o palco mais uma vez e mais uma vez o público fez barulho tal que os Satanic Surfers voltaram para um segundo encore que acabou com mais um clássico, desta vez “Good Morning”. Final em apoteose com Alfaro a mandar-se para um crowd surfing. Se esta não é a melhor forma de acabar um concerto, que caia já um piano do céu. O calor intenso dentro do RCA Club contrastava com o frio que fazia lá fora e é o retrato perfeito para uma grande noite de música. Não importa o tempo, não importa as condições sócio-económicas, não interessa sequer aquilo que nos corre bem ou mal na vida. Depois de uma noite assim, não há como sorrir espontaneamente. Magia destas não tem preço.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Hell Xis Agency


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