WOM Report Xxxapada na Tromba – Dia 1 @ RCA Club, Lisboa – 18.01.19

Xxxapada na Tromba no RCA Club é sinónimo de festa e nem o anunciado cancelamento dos Dehydrated fez mossa para antecipação deste primeiro dia que começou um pouco mais tarde do que o planeado devido a esse mesmo cancelamento. Para uma sexta-feira, onde à hora de início ainda muitos estão a sair no trabalho e a lutar contra o trânsito, como foi o nosso caso, mas quando os Moñigo subiram ao palco, a sala já estava muito bem composta.

A banda espanhola e o seu goregrind escatológico estavam a conseguir arrancar boas reacções por parte do público ávido por brutalidade. O trio estava vestido a rigor para aquilo que a sua música exigia – ou seja, estavam todos com camisolas sujas de uma certa substância castanha. Vestimentas aparte, em termos sonoros, a sonoridade da banda era limitada por uma bateria programada que tornava o seu som um pouco genérico. Ainda assim, o público reagiu bem aos seus petardos que iam sendo expelidos. A actuação também teve a intervenção de duas “animadoras de palco”, chamemos-lhe assim, que deram um complemento visual ao som dos Moñigo .

Dos escatologismo espanhol para a brutalidade do death/grind espanhol foi um tirinho e os Rato Raro demonstram ser uns bichos de palco impressionantes de se observar. Se os Moñigo não tinham baterista, os Rato Raro não tinham baixista mas ao contrário dos seus compatriotas, aqui o som era bem mais poderoso e dinâmico. No entanto, teremos que salientar o poder de palco que Toño “Alopecias Bukakke” dava à sua actuação. Poder e vida, pela sua expressividade e entrega. A banda, apesar de ser veterana, não tem muitos lançamentos e o último álbum, “Moleculeccosedelia”, já data de 2014, mas isso não impediu que houvessem movimentações a sério no público. Fórmula simples mas longe de ser básica, o que se notou num concerto que acabou um pouco mais cedo devido a um problema na guitarra.

Da Espanha para a Inglaterra, era a vez dos Crepitation colocarem o RCA em alvoroço. Com um simpatia extrema a banda, que tinha a particularidade de ter dois vocalistas (que tinham uma forma muito particular de cantar), e também era dona de um excelente sentido de humor que deu logo ar de si quando uma intro movida a música de dança electrónica se fez ouvir e a banda anunciou que tinha mudado e que já não tocavam death metal. “Engulfed in Enjoogulation” e “Concieved in Mortification” são apenas dois exemplos de uma actuação que foi ao encontro das expectativas e necessidade de acção de todos. As movimentações em frente ao palco eram intensas e é neste ponto em que ficámos com a sensação que não seriam necessários os serviços das duas “animadoras de palco”, mestre e escrava. A música falou mais alto, como deveria ser.

Os Meat Spreader foram os seguintes a subir ao palco e a sua apresentação low profile não poderia fazer prever o poderio do seu grindcore bruto dos queixos. A banda foi extremamente profissional e nem o facto de aparentar haver uma debandada de pessoas em frente ao palco os fez diminuir a sua intensidade. Pelo contrário, ficámos com a nítida sensação de que a banda conseguiu conquistar todos com o seu repertório que foi bem explorado, desde os temas mais antigos até aos do mais recente trabalho, “A Swarm Of Green Flies Over The Rusty Plot”, tornando o ambiente de festa geral e um frenesim sem parar entre o público que esgotaram as suas energias antes da pausa para o jantar.

Já com a bucha no bucho, era o momento de ter cuidado para não causar uma congestão. Não que a música dos Cripple Bastards tenha esse efeito no corpo humano mas principalmente por sabermos aquilo que nos esperava: um furacão grind/crust de origem italiana que não ia parar por ninguém. E assim foi. Tendo honras de cabeças de cartaz, foi a banda que mais tocou durante a noite – quarenta e cinco minutos mas parece que foram três horas, tal não foi a sova dada. Poderá não parecer mas não nos estamos a queixar. Estamos verdadeiramente maravilhados e este foi provavelmente o concerto da noite deste primeiro dia. Sem dar espaço para descansar a banda despejou literalmente uma agressividade sem precedentes – só ao fim de meia hora de porrada no lombo é que Giulio the Bastard agradeceu ao público em português e disse que iam tocar algo do novo álbum, “La Fine Cresce Da Dentro”, como se tivesse de acabado de tocar apenas um tema. Impressionante.

A barra estava bem elevada para que os Epicardiectomy pudessem superar o que se tinha acabado de passar com os Cripple Bastards e não tínhamos, sinceramente, expectativas que isso pudesse acontecer. O seu death metal brutal não é tão dinâmico como a sonoridade dos italianos mas ainda assim a banda meteu todos a mexer neste seu regresso ao nosso país após três anos e não esqueceu o seu mais recente trabalho “Grotesque Monument of Paraperversive Transfixion”, tocando o tema título e “Coprophagelicious Hypoxiphilia”. Por esta altura ainda víamos pessoas a chegar ao recinto e apesar da noite estar cada vez mais avançada, os níveis de energia não desarmavam.  Os checos sentiam bem o ambiente e estava nitidamente gratos ao público e à organização pela presença, apoio e convite.

Se os Cripple Bastards foram a banda da noite, os Grog estiveram bem perto de os destronar. Começaram em grande com “Uterine Casket” do mais recente “Ablutionary Rituals” e a partir daí foi um desfilar de luxo de death metal bruto e a puxar ao grindcore. Como um rolo compressor, os Grog trituraram o RCA Club, com um Pedro Pedra como mestre de ceremónias experiente em dar concertos. Teve ainda a ajuda de Sérgio Afonso dos Bleeding Display que subiu ao palco para cantar no clássico “Rotten Grave” (e nesta música também subiu ao palco Dinis, vocalista dos Dead Meat que não cantou, pelo menos não ao microfone, e ainda fez um stage diving de impôr inveja a Kal-El). Um rigor instrumental impressionante que nem decaiu de qualidade quando o primeiro baterista João Dourado, imortalizado nos primeiros tempos da banda como Johnny subiu ao palco para tocar a “Cannibalistic Devourment” e mostrou que quem sabe, não esquece.  Um grande concerto que não necessitava da comparência das já mencionadas “Animadoras de Palco” que surgiram a rasgar uma biblía e a mandar para o público. Se noutro contexto até se justificaria, aqui não trouxe qualquer valor acrescentado.

A seguir ao poderio dos Grog, notou-se mais uma vez um debandada do público para receber os Inhume. A banda holandesa é um dos nomes clássicos do brutal death metal e da sua mistura com o grindcore e apesar de não lançarem nada novo há quase nove anos, não deixam de ter argumentos mais que suficientes para manter os ânimos elevados. Não fosseo cansaço. Por esta altura já se começava a notar a quebra de energia e o público já não respondia tanto mas ainda assim a dupla de vocalistas não deixou de demonstrar boa capacidade de puxar pelo público que foi aderindo em crescendo ao concerto conforme este progredia. “Forbidden Hunger” e “Dead Man Walking” são dois destaques da sua actuação.

Os Brodequin eram uma das bandas que tínhamos mais curiosidade de ver neste primeiro dia, uma estreia no nosso país. Mais um nome veterano da cena de música extrema, tendo estado activos durante uma década de 1998 a 2008 e depois voltando em 2015. Sem propriamente nada de novo para demonstrar a banda assentou o seu alinhamento sobretudo nos três álbuns lançados na primeira metade da primeira década do novo milénio. Se antes tínhamos notado um abrandamento na energia do público, a forma algo monótona como a banda se apresentou em palco, sem grande movimento, também não ajudou a que isso fosse contrariado. No entanto, musicalmente, a brutalidade unidimensional estava no ponto e apesar da falta de movimento, não temos dúvidas em relação à entrega da banda norte-americana, principalmente pela forma como o baixista precisava de uma pausa para descansar no final de cada tema. Um bom concerto, apreciado pelo público.

Para a recta final ficariam os Satan’s Revenge On Mankind. Não só o nome da banda não é particularmente apelativa como a própria música ia pelo mesmo caminho. Tivemos aqui o primeiro atraso do dia – o que não deixa de ser um facto de aplaudir e representativo do profissionalismo da organização do Xxxapada na Tromba – que não foi além dos dez minutos e que aconteceu porque a banda, depois do soundcheck saiu do palco, ao contrário das outras todas, para ir vestir a sua “farda” de palco – bata de talhante e máscaras de cirurgia. Apesar da banda estar a puxar pelo público, o cansaço era mais que evidente principalmente pela falta de resposta quando os Satan Is Revenge On Mankind, através do seu baterista e vocalista (todos os três membros eram vocalistas), puxavam pelo público. No entanto, e honra lhes seja feita, a sua música ainda tinha poder suficiente para garantir uns circle pits que mesmo em piloto automático, não cessaram durante toda a sua actuação.

O balanço final para este primeiro dia da edição de 2019 do Xxxapada Na Tromba não pode deixar de ser bastante positivo. Como já foi referido, a pontualidade – um calcanhar de aquiles de qualquer evento que tenha mais que três bandas – foi exemplar, o som perfeito, o espírito de festa partilhado entre fãs da música extrema de várias nações que nos provam que este Mundo do Metal não só é enorme como também é unido. Prontos para o segundo dia?

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Xxxapada na Tromba


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