Reportagem Napalm Death, Deathrite, Besta @ Hard Club, Porto – 10/11/17

Nem a violência da tempestade Ana que assolou o norte, afastou o público do Hard Club para o evento mais revolto sujo e brutal do ano. A ementa para a noite foram a banda portuguesa Besta, seguida pelos alemães Deathrite e já os clássicos e consagrados britânicos Napalm Death. Com extrema pontualidade, a Besta abre as hostilidades com sua tradicional e original imundície. Começa com uma atmosfera de aparente calmaria, interrompidos pela saudação ao ritual da Besta pela voz extrema de Paulo Rui. O grupo executou uma compilação dos seus álbuns “Herege”, “John Carpenter” e “Filhos do Grind” de forma alucinante, com emendas e breves pausas mostrando a intensidade. Todos revelaram uma presença de palco prodigiosa com uma brutalidade singular, o público que aos poucos foi se soltando, marcou presença no bailarico à medida que o concerto evoluiu. Com uma performance de quarenta minutos vertiginosos, revelou desde o primeiro minuto, uma qualidade extrema, através de uma voz atormentada (alucinada, sempre a chamar pelo público), linhas de baixo sujas e precisas, uma guitarra obscenamente distorcida e pesada e uma bateria com estilos variados de blast beat simplesmente destruidores.

Ávidos por mais desgraça, foram recebidos no palco os Deathrite, banda que faz uma combinação fina e moderna de grindcore, doom e death metal e apresenta-se pela primeira vez em Portugal. Para começar, uma sombria introdução para o público tripeiro, acompanhada de uma sonoridade pesada e cadenciada nos momentos iniciais com “Breathing Doom” e “Golden Age” do álbum “Into Extinction”, deixando o público completamente submerso no ambiente soturno. Os Deathrite demonstraram profissionalismo, e criaram uma atmosfera nova através das três faixas seguintes do álbum já citado álbum “Into Extinction”:”Revelation of Chaos”, “Determinate to Rot”, e “Toxic Hammer”. O som era denso, favorecido através da mistura precisa de feedback intenso no entanto também havia uma mistura de sentimentos. Num momento uma sensação de irritação e pura insatisfação, noutra a conquista pelos andamentos doom, que surpreenderam os ouvidos mais incautos. Sem deixar o ritmo parar, ainda houve tempo para apresentar a música nova “Devil’s Poison”, muito bem recebida. Para finalizar, o público saiu do entorpecimento anterior e levaram com as duas músicas mais brutais do concerto, com um novo ritmo, forte, de mais death metal com elementos do álbum anterior: “Into the Ever Black” e “Where Evil Arises”, sendo tanto as músicas como a própria performance recepcionadas de forma calorosa por parte do público.

Era chegado o momento da apresentação principal, os lendários Napalm Death. Assim que entraram no palco, foram aclamados por todos. Começaram por prepar o terreno com a conceptual e até progressiva faixa título do mais recente álbum “Apex Predator – Easy Meat”, abrindo assim com “Silence Is Deafening” e “When All Is Said and Done”, tendo direito a uma brutal roda de bailarico formada em proporções gigantescas, sem faltar os tradicionais stage divings, com o panorama mosh a ficar completo. Aproveitando o furor presente foram apresentadas “Smash A Single Digit”, “Stunt Your Growth” e “Stubborn Stains” do já citado último álbum que iniciou o concerto, um hardcore grind/crust/punk com influência de death metal que não é mais que um grito de revolta perante a apatia da sociedade dócil, mercadoria dos corruptos donos do poder.

De seguida e sem mais demora os clássicos tomaram contam do recinto, tornando o ambiente ainda mais louco e animado. A grandiosidade do primeiro álbum “Scum” veio ao de cima, deixando todos electrizados com as clássicas “Scum”, “The Kill”, “Deceiver” e “You Suffer”, que também demonstraram a boa forma de todos os integrantes, sendo Barney incansável a correr por todo o palco desde o início do concerto. Sem parar com os clássicos, foram executadas “From Enslavement to Obliteration” e “Suffer the Children”. Com “Siege of Power” e “Nazi Punks Fuck Off” a loucura foi total e a revolta antifascista foi iniciada. A desobediência foi a palavra de ordem e o mosh foi a sua concretização. Napalm despediu-se com “Adversarial/Copulating Snakes”, sem deixar de soltar várias mensagens durante todo o concerto através do Mark “Barney”. Somos anti-guerra, somos todos seres humanos e não devemos matar-nos uns aos outros. O consumismo moderno escraviza crianças e adultos, ele mata-nos, a nós e à natureza, em prol da ganância, de saciar o desejo ilusório de aquisição e felicidade das classes superiores. Além disso o repertório sucinta novas e velhas questões, tais como se devemos ajustar-nos ao sistema? Ser apenas espectadores pacifícos e subservientes? Nitidamente essas perguntas são retóricas, representativas da mensagem não só do último disco mas bem como de todo o alinhamento do concerto, vastamente insubordinado.

O concerto termina com uma certeza: este foi um evento que deixou sua marca, com uma duração de quase uma hora de brutalidade descomunal. Destruição maciça que seja por arrancar o couro, literalmente, no mosh pit impiedoso ou por corromper, no bom sentido, a mentes dos presentes. Desde Besta a Napalm, sem esquecer os Deathrite, o público não deu folga e prestigiou em peso todas as faixas, desde os clássicos até as novas faixas, tendo sido esta noite memorável em todos os aspectos.

Texto por Jhoni Vieceli
Fotos por Sónia Molarinho Carmo
Agradecimentos a Hell Xis

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