WOM Report – Vagos Metal Fest – Dia 1 @ Quinta do Ega, Vagos – 08.08.19

A espera terminou. Após uma longa contagem decrescente, o momento aguardado chegou. Começava o Vagos Metal Fest. Esta edição de 2019 veio acompanhada de uma acompanhante algo indesejada: a chuva. No entanto, e tal como mencionado por Luís Salgado na conferência de imprensa, o público não se intimidou e esteve presente logo desde o início para a festa que começou às 17:15.

Diesel Humm

Foi ambiente de festa que encontrámos com os Diesel Humm em cima do palco. A banda que tem origem no concelho de Vagos Metal Fest começou em grande o primeiro dia  de festividades metálicas com o seu hard’n’heavy musculado e cheio de feeling tradicional. Os Diesel Humm, que completa este ano duas décadas de carreira, estavam nitidamente extasiados por estarem presentes no mítico evento. “Monster of Silence” e “No More War” foram dois bons exemplos do seu poder e da forma como a interacção de Luís Santos, frontman, com a vocalista de apoio Sara, apesar de algumas arestas a limar, tem um enorme potencial.

No mesmo palco (Amazing), surgiram os Basalto, uma banda que se enquadra perfeitamente no espírito dos cabeças-de-cartaz deste primeiro dia: Candlemass. O som dos Basalto é a definição em forma auditiva do conceito abstrato de música orgânica. Música que vive e respira de forma pura, sem ser forçada, que flui e move-se, que se molda consoante ao ambiente e que molda o ambiente com a força do seu poder. Em poucos mas longos temas, (com destaque para o mais recente trabalho, o excelente “Doença”), a banda de Viseu conseguiu meter todos a fazer headbang de forma contagiante – tantas coisas virais nesta vida de redes sociais, este é um daqueles que é digno de se ver.

A primeira banda do Palco Vagos foram os Burn Damage, uma entidade que merece sem dúvida o destaque e que não desiludiu todos aqueles que aguardavam por eles. Com o som da sua intro, foram-se juntando ainda mais pessoas que queriam aquela dose de intensidade bruta que só a banda de Inês Freitas consegue fornecer. “They Live”, “Firewalk With Me” (esta última dedicada a todos os seres vivos que perdem a vida na calamidade anual que assola a nossa natureza) e “Four Little Pigs” são dois exemplos do impacto violento que a sua música teve, tendo-se com ele registado as primeiras movimentações a sério do dia entre o público. Recepção forte, banda de coração cheio, público igualmente satisfeito, o que é que podemos pedir mais?

Contrariando a tendência, no Palco Amazing passou-se para algo mais lento mas não propriamente menos intenso. Os Painted Black são uma das propostas de topo do nosso país no que à mistura entre o death e o doom melódico diz respeito e o seu excelente trabalho “Raging Light” esteve em evidência com os dois primeiros temas “The Living Receiver e “Dead Time” e o público depressa entrou na onda. A contrastar com a melodia da música estava a boa disposição do frontman Daniel Lucas, que mencionou a forma como um tema como “Rain Of June (Out Of Season)” era mais que profética, tendo em conta os elevados níveis de pluviosidade. Para o final ficou uma pesadíssima “Via Dolorosa” do “Cold Confort” que terminou de forma apoteótica com a secção final da “Domination” dos Pantera. Temos a sensação que este não será o melhor espaço para o som da banda mas definitivamente que terão conquistado muitos novos fãs.

A banda que se seguia era uma das mais aguardadas (e solicitadas desde a existência do Vagos Metal Fest) – os Jinjer. E desde o primeiro ao último instante que a banda ucraniana teve o público nas mãos. Comandados com essa verdadeira força da natureza que é Tatiana Shmailyuk, os Jinjer praticamente passearam por um público rendido e ávido de músicas como “I Speak Astronomy” e “Just Another”. A banda sabia que tinha o tempo limitado e por isso o foco foi mesmo a música, algo que ninguém presente se terá queixado e a intensidade que vinha do palco era reflectida entre animados circle pits no público, chegando até a haver uma wall of death no “Sit, Stay, Roll Over”, o último tema da noite. Sem dúvida que precisam passar por cá mais vezes e de preferência sem tanto tempo de intervalo.

Chuva. Vento. Process Of Guilt. Três forças da natureza juntas num só espaço, um confronto de titãs onde seria difícil antecipar um vencedor. Ou nem por isso, já que se sabia que a banda de Evoranão só resiste a todas as outras forças de natureza como as consegue controlar. E nada parou os a banda de Hugo Santos conforme nos trouxeram os seus hinos de destruição e vazio. A passagem pelo mais recente trabalho da banda era obrigatória onde se destaca “Hoax” mas será sempre “Faemin” um daqueles pontos incontornáveis pelo seu poder destrutivo. Catarse no meio da contemplação dos destroços interiores de cada um é sempre um ponto que é comum à actuação dos Process Of Guilt. A sua passagem pelo Vagos Metal Fest não foi diferente.

Os cabeças de cartaz do primeiro dia do Vagos Metal Fest são os mestres do doom épico, os Candlemass. Não são precisas grandes apresentações (ou não deveriam ser) mas mesmo que fossem, o alinhamento que a banda sueca trouxe para o Vagos, à semelhança da sua recente digressão, foi assente sobretudo nos clássicos, embora Portugal tenha sido beneficiado com um alinhamento mais generoso. O início foi uma sequência demolidora com os clássicos “Well Of Souls” e “Dark Reflections” logo tocados de rajada. E como se não bastasse, logo de seguida “Mirror, Mirror”. Bastava esta sequência para deixar qualquer um derreado. Mas não, o público queria mais e a banda tinha muito mais para dar. “Astorolus The Great Octopus” foi uma das raríssimas incursões à novidade “The Door Of Doom”, que não contou com os dotes de Tony Iommi, mas também não era preciso, estava lá Lars “Lasse” Johansson.

A banda de Leif Edling, eterno mastermind, está no pico de forma impressionante, tendo em conta a idade com que já gozam, mas mais impressionante é o pulmão de Johan Längquist, que não só estavam em tão boa forma como na altura em que gravou o mítico álbum de estreia da banda, “Epicus Doomicus Metalicus”, como fez esquecer uma voz tão marcante como a de Messiah Marcolin em temas como “Bewitched” – este que também teve direito a um grande solo de guitarra. Mas inevitavelmente os pontos altos foram as “A Sorcerer’s Pledge”, “Crystall Ball” e a “Solitude”, esta última que colocou um ponto final a um dos concertos mais memoráveis deste primeiro dia. E, claro, o crowd surf de uma pessoa de cadeira de rodas.

A primeira vez que os Equaleft subiram a um palco do Vagos Metal Fest, mais concretamente no Palco Amazing, foi verdadeiramente especial. A banda de Miguel Inglês entrou com tudo e apostando no seu mais recente trabalho, “We Defy”, que foi quase todo tocado na íntegra. “Fragments” e “Once Upon A Failure” foram os primeiros temas que marcaram o mote para a restante actuação da banda do Porto. A mistura entre o groove do metal moderno e o poder do death metal resulta em níveis de intensidade difíceis de igualar. Com um alinhamento generoso, a banda triturou o público, sem que este se importasse. “Maniac” e “Invigorate” foram alguns dos temas escolhidos do álbum de estreia “Adapt & Survive”, este último a encerrar a actuação em alta, com os húngaros da praxe para a despedida.

Para encerrar o primeiro dia, também no Palco Amazing, vieram os Dallian de Leiria com o seu death metal sinfónico e imagem bastante sui generis, um festim visual sobretudo para os fãs do steampunk. A entrada foi fulgurante com “The Lie Vision”, onde Carlos Amado cantou em dueto com Ana, algo que resultou perfeitamente.”The Nun Of Azrael”, tema que deu origem da banda foi outro ponto alto da sua actuação. A hora era já diantada, mas a banda conseguiu concentrar à sua frente uma mole humana de apoiantes fieis e ávidos por mais música do que aquela que a banda tinha para tocar, até mesmo depois do final, pedindo por mais uma mas o fim era inevitável. Com este som e com esta qualidade de músicos, sem dúvida que dava para muito mais. Fica a nota para regressarem numa outra posição, no cartaz.

Foi um primeiro dia recheado de momentos altos, onde não houve qualquer tipo de problemas e nem se notou qualquer dificuldade sentida devido à chuva – já o público e imprensa estiveram em algumas dificuldades aquáticas, não tendo isso afectado o entusiasmo com que este primeiro dia foi vivido. Concertos que ficarão na memória e que já elevaram a fasquia para o que se avizinha nos próximos dias. Expectativas que serão certamente superadas.

Texto Fernando Ferreira
Fotos Sónia Ferreira
Agradecimentos Amazing Events

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