WOM Report – Vagos Metal Fest – Dia 2 @ Quinta do Ega, Vagos – 09.08.19

Reportagem 1º Dia

Depois de um grandioso primeiro dia, estava já tudo pronto para a segunda dose. Ainda o almoço se estava a acomodar no bucho, já estava público em frente ao palco Amazing para receber a primeira banda do dia, que neste caso foram os franceses Ways.

Apesar do número ainda ser humilde, aos poucos iam chegando aqueles que já tinham vencido a ressaca do dia anterior. Isso não impediu os Ways. de atacarem com garra o tempo curto que tinham disponível, tendo até depois recebido a visita de um grupo de crianças (e respectivos monitores) da iniciativa Vagos Em Acção Júnior, que tinha sido levado a passear por todo o recinto e a estacionarem em frente ao palco durante a actuação da banda francesa. A sonoridade moderna da banda foi recebida, mas ficou provado que ainda era cedo demais para reacções efusivas ou para muito movimento entre o público. “So Far So Good” foi um dos temas de destaque da sua actuação. A mistura entre o rock e o metal moderno é de fácil assimilação mas a energia recolhida foi moderada.

Expectativas consideráveis para a actuação dos Okkultist no Vagos Metal Fest. Expectativas que em parte não foram cumpridas. O soundcheck arrastou-se por cerca de quinze minutos para além da hora e esse início tardio havia de marcar infelizmente a actuação (N.E. – Foi-nos confirmado que foi o facto dos Ways. terem tocado mais que o previsto terá estado na raiz de toda esta questão). Beatriz Mariano surgiu com uma caracterização fantástica, encarnando um lado diabólico e a banda estava bem coesa a debitar o seu death metal old school, que inevitavelmente trouxe bastantes circle pits a uma plateia bem composta. Uma vez ultrapassado o tempo da banda, o som para o público foi cortado quando se iniciou o último tema, ficando apenas o de palco. A banda continuou a tocar – Beatriz tinha ficado sem som no micro – quando a intro dos Redemptus começou a ouvir-se no palco Vagos e o público, confuso, hesitou entre dispersar ou em esperar que a banda acabasse. Algo que manchou infelizmente a passagem de uma das grandes revelações do death metal nacional por Vagos.

Os Redemptus começaram a tocar quando o público ainda estava em migração dos Okkultist. O trio português atacou logo com o seu sludge bem barulhento e emocional e Paulo Rui, num registo bem diferente daquele que nos habituou nos Besta, não se cansou de se mostrar grato pelo convite e pela presença nesta quarta edição do Vagos Metal Fest. O som, esse, esteve ao nível da honra, com um poder e violência únicos em hinos que nos falam de destruição anterior, bem patente nos temas debitados. Sendo a segunda vez que os tivemos hipótese de os ver (a primeiro foi na mais recente edição do Silveira Rock Fest) e num ambiente bem menos intimista, podemos dizer que o impacto foi igualmente impressionante, testemunho também para a versatilidade da banda e da sua música.

Do poder do sludge para o thrash metal teutónico clássico dos Exumer foi um instante, embora tenham começado para lá da hora prevista. Começaram com grande garra e o público aderiu sem hesitações. “The Raging Tides”, do penúltimo álbum foi o tema que teve honras de abertura e a partira daí foi um festim thrash metal. Um concerto histórico por ser o primeiro da banda em Portugal e onde se distribuíram as atenções entre os clássicos como “Fallen Saint” e outros mais recentes como “The Weakest Limb” (com direito a crowd surf por parte de um dos seguranças, demonstrando bem o ambiente de festa vivido) e “Catatonic” (dedicado a Lemmy Kilmister), tendo ficado para o final mais uma rajada de clássicos na forma de “Dark Reflections” e “Possessed By Fire”. Um concerto demasiado curto para a importância histórica da banda e do seu valor. Marc Bräutigam, o activo vocalista dos Exumer assegurou que iriam voltar. Esperamos mesmo que sim.

De volta ao palco Vagos estavam os Necrophobic com o seu death/black metal melódico. Com um som bem alto – de certeza que era para chegar às profundezas da terra – a banda sueca fez o chão estremecer. Com um vasto catálogo de álbuns e canções por onde escolher mas acabaram por recair sobre aqueles onde o black metal acaba por estar mais evidente, a condizer com apresentação visual da banda que surgiu com corpsepaint. Não faltaram de qualquer forma os clássicos como “The Nocturnal Silence” e “The Call”. “Celebration Of The Goat” e “Tsar Bomba” foram outros mais recentes que tiveram um excelente impacto entre o público que vestiu a pele de acólito para a celebração negra. Destaque ainda para a “Revelation 666” e o seu excelente solo. Sem dificuldades, mesmo sem tocar todo o alinhamento previsto, um dos pontos altos do dia até ao momento. Mais se seguiriam.

Das profundezas dos infernos para as Ilhas Faroé, o público de Vagos Metal Fest foi visitado pelos vikings Týr que tiveram um entrada triunfal apesar de um som algo instável onde os principais prejudicados foram inicialmente a voz de Heri Joensen e o som do baixo de Gunnar Thomsen. O público estava verdadeiramente empolgado – quando se vê (alguém vestido como) uma freira a fazer crowd surfing, não há como enganar, é a magia de Vagos em acção – e a banda ia escolhendo selecções da sua já longa carreira, tendo sempre um efeito vitorioso – tirando talvez a mais calma “Sunset Shore” que quebrou um pouco o ritmo. Todavia, a sequência final foi de luxo com uma “Gates Of Hel”, “By The Sword” e o hino “Hold The Heathen Hammer High”. No entanto, esta é outra banda que poderiam muito bem ter tocado o dobro do tempo que ninguém se queixaria.

Foto por Filipa Nunes

O previsto anúncio por parte da organização para as 20h:15 acabou por surgir um pouco mais tarde mas mesmo assim o impacto foi enorme. O anúncio das datas da próxima edição – a decorrer entre os dias 30 e 1 de Agosto, podendo-se já notar que há alteração de menos um dia e que a data é movida para uma semana mais cedo. Foi anunciado também o primeiro cabeça de cartaz, Testament que chegarão acompanhados por Harakiri For The Sky, Asphyx e Trollfest.

Com estas boas notícias, a cereja em cima do bolo foi obviamente a entrada dos Primal Fear em palco. A banda liderada por Matt Sinner é um dos porta-estandartes do heavy metal alemão que, infelizmente, não vem tantas vezes a Portugal como os fãs de heavy metal gostariam. No entanto isso também só faz com que a reacção seja realmente intensa. E assim foi. Verdadeiros hinos do som sagrado surgiram na forma de “Angel In Black”, “Nuclear Fire” e, claro, a impressionante “Metal Is Forever. Impressionante pela forma como Ralf Scheepers consegue ao vivo reproduzir aquilo que foi gravado há já alguns (consideráveis) anos, demonstrando uma voz com uma vitalidade bem invejável. Apesar do som demasiado alto e de alguns problemas com o som de palco que irritaram Matt Sinner no início, foi um excelente concerto, sólido, como é o seu heavy metal. Mais uma banda que deveria passar mais vezes pelo nosso país.

As trevas desceram a Vagos e o sino anunciou o início da missa negra, uma das mais aguardadas dos últimos tempos. É sabido que os Watain têm uma presença de palco que leva à letra aquilo que a sua mensagem dita, ou seja, sangue e fogo. Com diversos pontos do palco em chamas, incluindo dois tridentes gigantes, estava garantido o interesse geral, mesmo daqueles que não apreciavam black metal. Para quem apreciava e veio de propósito para este concerto, não ficaram desiludidos. Os suecos levaram o público aos vários níveis do seu inferno, visitando quase todos os álbuns da sua discografia, destacando-se “The Child Must Die”, “Total Funeral”, “Sacred Damnation” (com direito a banho de sangue directo do cálice) e “Puzzles Ov Flesh”. Apesar do som estar algo alto, não foi nada que baixasse o nível de satisfação em relação ao que se ouviu.

Hora dos cabeças de cartaz, Six Feet Under, subirem ao palco. Entraram em grande, sem apelo nem agravo, com os três primeiros temas tocados a serem precisamente os primeiros do mítico “Haunted”, o álbum de estreia da banda editado em 1995 – “The Enemy Inside”, “Silent Violence” e “Lycanthropy”. E logo no início verificou-se que o público estava completamente rendido. Uma banda histórica do death metal norte-americano a tocar pela primeira vez em Portugal, um frontman que fez história como primeiro vocalista dos Cannibal Corpse, temas clássicos do género a serem debitados com um som poderoso… parece-nos que seja algo perfeitamente natural de acontecer. No entanto, Chris Barnes desde cedo se mostrou impressionado com a reacção do público do Vagos Metal Fest, algo que não se coibiu de demonstrar várias vezes.

As músicas iam-se sucedendo a um ritmo frenético, percorrendo, quase de forma cronológica a carreira da banda norte-americana, não avançando muito para terrenos mais recentes. Não interessava qual a escolha da música. Ondas e ondas de crowdsurf rebentavam no pit e a movimentação entre o público era para lá de intensa. O que só fazia com que Barnes não se cansasse de agradecer pela recepção e pelo apoio ao longo de toda a história da banda – chegando mesmo a dizer que apesar de ser algo que se diz muito em todos os sítios, esta era uma daquelas noites que ele não se importava de repetir todos os dias. Para a memória. E para a memória foi também a forma como o concerto terminou: com duas covers de Cannibal Corpse. Primeiro. “Stripped, Raped and Strangled” e o clássico absoluto “Hammer Smashed Face”. Um frontman enorme, uma banda de topo – onde claro que teremos que referir o mestre Jack Owen, também ex-Cannibal Corpse – e um público à altura da excelência do momento. Ou até superior.

Uma noite assim poderia muito bem dar-se como encerrada, que ninguém se queixaria disso, no entanto ainda faltavam os The Godiva, que iriam ter uma actuação muito especial. Não só celebram duas décadas de existência como também iriam tocar com a Purgatory Orquestra onde se incluía um fantástico coro. E como seria de prever, a preparação para este grandioso momento foi morosa. O risco de ter um êxodo de pessoas após os Six Feet Under seria enorme, no entanto acabou-se por se concentrar uma multidão em frente ao palco e ninguém ficou desiludido. Com uma sonoridade assombrosa, a fazer lembrar o “Damnation And A Day” dos Cradle Of Filth, perfeita para ilustrar aqueles filmes de terror clássicos da década de sessenta dos estúdios Hammer, os The Godiva teceram tapeçarias sonoras altamente hipnóticas, onde a orquestra se fundiu de forma perfeita com a sua própria sonoridade, sendo impossível dissociar ambas as partes. O novo álbum, com edição prevista para o início do próximo ano, foi tocado na íntegra e o concerto foi registado para posteriormente ser lançado em CD/DVD.

Um final perfeito para um dia que apesar de não ser perfeito, não desiludiu quem tinha as expectativas altas que foram construídas por um excelente primeiro dia. E assim se passou para o terceiro dia.

Texto Fernando Ferreira
Fotos Sónia Ferreira
Agradecimentos Amazing Events

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