WOM Report – Vagos Metal Fest – Dia 3 @ Quinta do Ega, Vagos – 10.08.19

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A potência do dia anterior ainda ecoava interiormente em todos nós e seria de esperar que a ressaca fosse prolongada e impedisse que todos estivessem presentes logo no raiar do terceiro dia do Vagos Metal Fest. Foi precisamente o cenário contrário que encontrámos, ainda para mais tendo aberto o recinto um pouco mais tarde.

Havia uma razão simples para explicar o sucedido. Os Aborted foram a primeira banda do dia. Uma escolha um pouco estranha poderá pensar-se, ter uma abertura de luxo destas, mas aconteceu por questões horárias – os Aborted tinham que viajar logo após o concerto para Inglaterra onde iriam actuar no Bloodstock. A banda belga entrou com a gana toda. Logo com “Terror Vision”, o tema-título do seu mais recente trabalho de originais. O vocalista Sven de Caluwé informou que devido a problema de extravio de bagagens, os Aborted iriam tocar alinhamento versão rock’n’roll, já que a bagagem perdida continha a parafernália electrónica que a banda costuma usar em palco. “Cadaverous Banquet” e “Necrotic Manifesto” foram exemplos da mestria da banda belga que provocou circle pits de proporções épicas. Soube a pouco mas é sempre assim com as grandes bandas.

Já os Repulsive Vision, apesar de também tocarem death metal, não conseguiram ter nem metade do impacto da banda que os precedeu. Com uma sonoridade bem tradicional dentro do death metal britânico, os seus argumentos não foram suficientes para manter todos perto da plateia enquanto a actuação durou. Com grande parte do alinhamento a basear-se no único álbum de originais, “Look Past The Gore And See The Art”, a prestação da banda foi esforçada ainda que o som nos tenha chegado algo atabalhoado e embrulhado, com resultados um pouco abaixo do desejado – principalmente após um concerto tão bom na última edição do Oeste Underground. A falta de clareza no death metal, foi compensado pela força bruta, o que foi apreciado pelos presentes. Foi o suficiente.

Para recuperar o entusiasmo que poderia estar potencialmente perdido, nada como um pouco de heavy metal. Aliás, esta é uma máxima que pode ser estendida a tudo na vida: se há um problema que persiste, a solução passa mesmo pelo som sagrado, principalmente se o mesmo nos for trazido pelos mestres Midnight Priest. Como já tinha acontecido algumas vezes, o som do Palco Vagos estava absurdamente alto, algo que acabou por prejudicar a apreciação de temas como “Holy Flesh” e “Iron Heart” retirados do mais recente trabalho de originais, “Aggressive Hauntings”. O volume não impediu que a frente do palco estivesse à pinha e que o entusiasmo com os temas mais clássicos como “À Boleia Com O Diabo” e o hino “Rainha Da Magia Negra” fosse absoluto e contagiante. Como seria de esperar, também soube a pouco, algo que julgamos ser a opinião geral.

Passando para algo mais bruto, era-se chamado ao Palco Amazing para a dose de thrash metal bruto que os Infraktor conseguem entregar, necessária para continuar com ânimo. Com a intro da praxe do “Predador” a anunciar a matança iminente. “Inevitability Of Reason” começou as hostilidades em alta cilindrada, com o público logo a demonstrar-se bastante irrequieto. Pudera, como é que alguém poderia estar parado enquanto temas como “Confront” e “Exhaust”, este último o tema título do álbum de estreia (e único) da banda de Santa Maria da Feira. Hugo Silva, vocalista, não se cansou de referir o quão especial para a banda estava a ser esta presença no Vagos Metal Fest e o apoio dado por todos os fãs desde o início da sua carreira, e isso reflectiu-se na actuação da banda. De salientar ainda a participação de Rui “Raça” Alves (vocalista dos Revolution Within) na “Ferocious Intent”. Sempre um ponto alto, em qualquer cartaz.

No palco Vagos, as atenções voltavam-se para os S.D.I., uma banda que grande parte dos presentes nunca tinha visto ao vivo e que, arriscamos a dizer, desconheciam até. No entanto, a banda alemã (cujo nome completo é Satan’s Defloration Incorporated) surpreendeu tudo e todos com o seu crossover raçudo e animado. O que lhe faltava em sofisticação sobrava em bom humor, garra e malhas onde o thrash e o punk se juntavam em doses iguais para meter todos a mexer. Efectivamente esse foi o resultado obtido, onde até os seguranças (desta vez dois em simultâneo) se juntaram ao crowd surfing, oficializando assim a criação de uma nova modalidade nos concertos de metal. “Absolute Banger ” e “Megamosh” foram alguns temas de destaque de uma actuação que se encaixa de forma perfeita neste tipo de evento.

A junção dos dois mundos é a especialidade do Vagos Metal Fest. Se num palco Vagos tivemos uns S.D.I., no palco Amazing pudemos ouvir os Letters From The Colony com a sua mistura entre metal progressivo, djent e metalcore. Poderíamos acrescentar muitos mais géneros à lista no entanto seria infrutífero para ajudar à missão de relatar o que se passou. Apesar do público ter sido menor – muitos terão aproveitado esta actuação para ir jantar – e o som da banda sueca não ser propriamente imediato (muito pelo contrário até), a actuação foi irreprensível, o que fez com que aos poucos a banda tenha conseguido conquistar o apoio do público. Por vezes as coisas não são entregues de bandeja, por vezes têm que ser conquistadas. E a reacção a temas como “Cataclysm”, “Sunwise” e “Galax” que finalizou foi de tal forma positiva que o baterista, Jonas Sköld perguntou ao vocalista Alexander Backlund se não seria possível tocar em Portugal todos os seus concertos.

O pato amarelo gigante em cima do palco Vagos só podia significar uma coisa: os piratas escoceses vinham a caminho. Com aquecimento movido a Queen, onde se pôde ouvir “We Will Rock You”, “We Are The Champions” e a “Bohemian Rhapsody” (como não poderia deixar de ser cantada em uníssono), quando os Alestorm entraram em palco, já estava tudo mais que preparado para a festa. “Keelhauled” deu o mote para o início da festa e também o início de uma nova prática no meio metaleiro: as bóias
surfing. Colchões, bóias, bolas de praia passearam alegremente durante todo o concerto ao som de verdadeiros hinos de pirataria naútica e, claro, cerveja. “Nancy, The Tavern Wench”, “Black Sails At Midnight” e a clássica “Captain’s Morgan Revenge” que proporcionou a já habitual wall of death gigante. Aquela de dose de diversão infalível à la Alestorm que nunca envelhece, apenas vai ficando cada vez melhor. Humor, cerveja, piratas e metal. E, claro, insufláveis.

No palco Amazing era o momento de entrar em cena uma das bandas clássicas da mítica Bay Area que por acaso são capa da nossa mais recente edição: Death Angel. Com um som bem equilibrado e poderoso, a banda de Mark Osegueda e Rob Cavestany aproveitou ao máximo o tempo disponível e passaram por vários pontos da sua já considerável discografia. Começando na “Thrown To The Wolves” do mais recente trabalho “Humanicide”, os norte-americanos andaram pelos trabalhos mais recentes como “The Evil Divide” e “Relentless Retribution” mas o efeito nostálgico é sempre poderoso, pelo que
a reacção a “Voracious Souls” do clássico “The Ultra-Violence” foi um dos pontos mais altos da actuação. Essse e o final com a “Mistress Of Pain” que teve honras de ter como intro o trecho inicial da “The Ultra-Violence” (para quando tocarem esta pérola do thrash por inteiro?). Ainda não perdemos a esperança de os vermos em nome próprio mas deu para encher a barriga de muitos (mesmo muitos) com o belo do thrash metal.

Os cabeças de cartaz Satyricon não só são um dos grandes nomes deste cartaz como também já há bastante tempo que não visitavam o nosso país. Como tal, as expectativas do interesse na banda materializou-se com uma plateia bastante preenchida. A intro algo assombrosa da banda norueguesa meteu todos em sentido e eles não desperdiçaram a atenção conquistada, começando com
“Midnight Serpent”, o tema de abertura do mais recente álbum, “Deep Calleth Upon Deep”. Satyr inicialmente nem comunicou com o público inicialmente. Nem era necessário, a devoção de Vagos às artes negras escandinavas foi total. Poderia bastar gritar por Portugal como fez antes de “Black Crow On A Tombstone” que todos ficariam satisfeitos, afinal a música já fazia todas as comunicações essenciais.

Não foi o caso já que Satyr até esteve bastante comunicativo, inclusive quando relembrou que este ano de 2019 marca o vigésimo aniversário do controverso e mal amado na altura em que foi lançado e tornado em álbum de culto, “Rebel Extravaganza”, apelidado do álbum tecno. Sarcástico, Satyr referiu que iam tocar uma música tecno, uma intensa “Supersonic Journey” que reduzida à sua essência black metal, é uma besta temível. Houve músicas para todos os gostos mas foi sobretudo um “The
Pentagram Burns”, uma surpreendente “Walk Of The Path Of Sorrow” do velhinho “Dark Medieval Times” e a inevitável “Mother North” que maiores reacções arrancaram por parte do público que não acusavam o cansaço de malhão após malhão. Um cabeça de cartaz à altura da responsabilidade que a sua posição acarreta, num dos seus melhores concertos dados em território nacional. A satisfação foi visivelmente de ambas as partes.

Mesmo não sendo uma banda veterana ou que seja excepcionalmente popular, as opiniões convergem-se todas no mesmo sentido, até a nossa, que escolhemos o álbum “Nattavert” como álbum do mês – os Wormwood eram uma das bandas mais aguardadas para este dia. A honra de encerrar o dia ficou bem entregue e os suecos deram um concerto memorável. Daqueles que deveriam ter sido gravados para a posteridade. “Godless Serenade”, “What We Lost In The Mist” e “The Achromatic Road”. são apenas alguns exemplos de um grande, enorme concerto. Mesmo sendo suspeitos, estamos convictos que não estamos sós nesta crença, tendo este sido não só uma das melhores actuações do dia como de todo o festival. Sim, foi assim tão bom.

Um dia em pleno, com um recinto bastante cheio e com concertos que ficarão na memória colectiva de todos os presentes. Correndo o risco de sermos repetitivos, é esta a magia de Vagos. Não se consegue imitar, mal se consegue explicar. Apenas viver e absorver o momento que durará toda uma vida.

Texto Fernando Ferreira
Fotos Sónia Ferreira
Agradecimentos Amazing Events

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